A cidade de Campos dos Goytacazes ganhou um novo percurso de memória e reconhecimento histórico com o lançamento do Afro Roteiro, projeto que propõe uma releitura do Centro Histórico da cidade a partir das narrativas da população negra.
A iniciativa consiste na instalação de placas informativas em pontos estratégicos da área central, formando um trajeto que evidencia histórias e personagens fundamentais na construção social, cultural e econômica do município.
O Descubra Campos conversou com Simone Pedro, socióloga e idealizadora do projeto, que contou que o Afro Roteiro nasce como uma proposta de valorização da memória negra no espaço urbano e de ampliação do acesso público a essas narrativas.
A proposta do Afro Roteiro surgiu a partir da percepção de que parte significativa da história da cidade, especialmente a ligada à população negra, permanece pouco visível nas paisagens urbanas e nas narrativas oficiais. Segundo Simone, muitas dessas histórias já estavam registradas em pesquisas acadêmicas, relatos de memorialistas e na memória coletiva, mas ainda careciam de uma forma mais acessível de chegar ao público.
“O Afro Roteiro nasce da escuta e da observação. A gente percebe que muita coisa importante da história de Campos, principalmente ligada à população negra, não está contada nos lugares por onde as pessoas passam todos os dias. Essas histórias existem e o projeto surge para tornar visível esse conjunto de histórias que sempre fizeram parte da cidade, mas nem sempre foram destacadas”, explica a socióloga.
Nesta primeira etapa, o roteiro reúne 23 pontos históricos, selecionados a partir do cruzamento de diferentes fontes de pesquisa e da leitura do território atual. A organização do percurso parte de quatro eixos principais: Igreja do Rosário, Pelourinho, Praça São Salvador e Rua da Boa Morte, locais onde diferentes relatos da história negra da cidade convergem.
Entre os locais contemplados estão a Casa de José do Patrocínio, a Lyra de Apollo, o antigo Largo do Rosário e o próprio Pelourinho, no Boulevard Francisco de Paula Carneiro. Para a socióloga, mais do que pontos isolados, o projeto propõe uma conexão entre esses espaços, formando uma narrativa contínua sobre a construção da cidade.
Cada placa instalada no percurso conta com QR Code, permitindo que moradores e visitantes acessem, diretamente pelo celular, conteúdos digitais mais de-talhados sobre cada ponto. A ferramenta amplia o acesso à informação e transforma o espaço urbano em uma espécie de sala de aula aberta.
“A sinalização dos pontos é parte fundamental. Ela funciona como uma intervenção na paisagem da cidade.
Quando você passa por um ponto e acessa aquela memória ali mesmo, isso muda a forma de ver o lugar, permitindo que as pessoas se conectem com ele de outras formas.”
A história de Campos, marcada pela forte presença da economia açucareira e pelo trabalho escravizado, também aparece de forma central no roteiro. O projeto busca apresentar essa herança histórica a partir de uma perspectiva que reconhece a participação, a resistência e as estratégias de organização social da população negra. “Os pontos mostram como a cidade foi construída a partir da economia do açúcar e do trabalho escravizado, mas a partir do olhar de quem, de fato, sustentou esse processo. Isso é essencial. Estamos ressaltando a resistência desse grupo social não só pela força física, mas pela inteligência, pela estratégia, pela organização social e pelas habilidades de trabalho vindas de uma cultura ancestral africana. É uma visão mais completa da história”, explica Simone.
Além da dimensão histórica e cultural, o Afro Roteiro também pretende dialogar com o campo da educação. A expectativa é que escolas e universidades utilizem o percurso como ferramenta pedagógica, transformando a cidade em um espaço de aprendizagem e investigação.
Outro objetivo do projeto é contribuir para fortalecer o sentimento de pertencimento entre os próprios moradores. Ao reconhecer narrativas que por muito tempo permaneceram invisibilizadas, a iniciativa busca ampliar o entendimento sobre quem construiu Campos e de que forma diferentes grupos sociais participaram desse processo.
A proposta também dialoga com um desafio urbano contemporâneo: o esvaziamento de centros históricos e comerciais. Para Simone Pedro, iniciativas culturais e educativas podem estimular novas formas de ocupação desses terri-torios.
“Quando essas histórias ganham visibilidade, elas reativam o interesse pelo território a partir da cultura e da educação, gerando pertencimento, movimento e novas formas de ocupação do Centro.”
Ao recontar a história da cidade a partir de outras perspectivas, o Afro Roteiro também se coloca como uma ferramenta de enfrentamento ao racismo estrutural. Para Simone Pedro, iniciativas que ampliam o acesso a essas informações têm
papel importante na formação de uma consciência histórica mais plural, sobretudo entre as novas gerações.
“Acredito que o Afro Roteiro tem esse potencial, principalmente pensando nas gerações futuras. O letramento racial e a educação antirracista são fundamentais nesse processo, especialmente quando as pessoas passam a reconhecer lugares e personagens com os quais podem se identificar.”
Nesse sentido, o projeto não apenas resgata memórias, mas contribui para reposicionar essas histórias no espaço público, incentivando uma leitura mais ampla e inclusiva sobre a formação da cidade e sobre os diferentes grupos que ajudaram a construi-la.
@descubracampos







