De fisioclínica a Starclínica: Crescer é se transformar

Transformar um negócio significa ter coragem para rever caminhos, questionar definições antigas e criar espaço para algo maior. É exatamente esse movimento que marca a trajetória da StarClínica, que nasceu como uma clínica especializada em fisioterapia e, ao longo dos anos, ampliou sua atuação para se tornar uma marca de saúde cada vez mais completa.

Por trás dessa transformação está Julia Neves, fisioterapeuta, empresária e sócia-fundadora da clínica. Ao longo de mais de uma década, ela acompanhou o crescimento da empresa, liderou equipes multidisciplinares, enfrentou os desafios da gestão e participou de decisões que mudaram o rumo do negócio. Nesta edição, Julia fala sobre empreendedorismo, liderança, inovação, coragem para mudar, os bastidores da criação da StarClínica e os aprendizados de uma trajetória construída passo a passo.

Fever: A história da FisioClínica começou em 2014. Quando você olha para trás, qual foi o momento em que percebeu que o negócio havia se tornado algo muito maior do que imaginava?

Julia: O que me faz pensar que o negócio se tornou maior do que eu imaginava é quando eu realmente olho hoje para as clínicas e vejo que eu não sou mais uma pessoa indispensável. Eu gosto de saber que sou dispensável para as clínicas, isso mostra uma maturidade. Isso mostra que a clínica cresceu e já tem a capacidade de caminhar sem mim. Isso é a maior vitória para um gestor.

Fever: Muitas empresas passam anos construindo uma marca. O que fez você entender que era hora de deixar de ser apenas uma clínica de fisioterapia para se tornar a StarClínica?

Julia: Mudar o nome de uma marca é uma das coisas mais difíceis que uma empresa pode fazer. Primeiro porque existe uma história por trás dessa marca, todo um caminhar com esse nome, que foi escolhido com muito carinho. Mas quando a gente se engloba como uma clínica especialista e, no decorrer dos anos, ela deixa de ser especialista para ser uma clínica de saúde, o nome precisa acompanhar. O que me deixou mais feliz foi a gente não ter abandonado completamente o nome e criado um novo nome. Isso da gente unir os nomes das nossas duas marcas principais, FisioStar e FisioClínica, e virar StarClínica, me deixou muito confortável, porque não parece que a gente está abandonando, parece que estamos unindo.

Fever: Empreender na área da saúde significa equilibrar gestão, pessoas, números e cuidado. Qual desses desafios foi o mais difícil de aprender?

Julia: O maior desafio de organizar, ser gestora de uma empresa, de estar à frente de qualquer negócio, são as pessoas. Porque não é fácil. Número é uma coisa exata, a gente soma, faz, refaz. Porém, para tudo acontecer, a gente precisa que essas pessoas estejam adaptadas a todo o resto.

Gerir um time, gerir uma equipe, motivar a equipe, encontrar as pessoas certas para os lugares certos, descobrir o talento de cada pessoa, deixar as pessoas se sentirem confortáveis em seu lugar de potência, olhar os pacientes e entender que a gente precisa cuidar e tentar dar o melhor. Então, sem dúvida nenhuma, o maior desafio para um gestor é se qualificar. Inclusive, fiz diversos cursos realmente focados em gestão de pessoas. Esse com certeza é o maior desafio.

Fever: O setor da saúde tem passado por transformações rápidas, principalmente com a chegada de novas tecnologias. Como você decide quais inovações realmente fazem sentido para os pacientes?

Julia: Perguntando! Eu acho que isso é uma grande dificuldade dos gestores, de uma maneira geral. É a gente colocar algo que não gera nenhum tipo de benefício para o paciente final. E tecnologia também, eu penso muito sobre isso para a nossa equipe, são coisas que vão facilitar os nossos processos.

Então nada disso pode vir da minha cabeça. Eu entendo que existe, eu estudo, eu procuro saber as coisas que existem. São diversas coisas que são apresentadas para a gente. Mas aí qual é o próximo passo? O que cabe para a gente? Porque não é o que eu acho, é o que realmente as pessoas veem valor.

Tem coisas que eu acho maravilhosas para o meu time interno. Eu falo: “Gente, isso vai resolver o nosso problema”. Mas elas olham para mim e falam: “Eu não acho”. Pronto, está decidido. Então, talvez muitas coisas que para mim, Julia gestora, podem ser muito inovadoras e disruptivas, se a gente não pergunta realmente o que é valor, a gente se perde um pouco nessas novas tecnologias.

Fever: Você lidera equipes multidisciplinares e acompanha a expansão da empresa. Como desenvolveu sua forma de liderar pessoas ao longo dos anos?

Julia: Hoje eu lidero uma equipe de profissionais de saúde multidisciplinar e uma equipe que vem de vários setores: tecnologia, marketing, enfim, são muitos pontos.

E como a gente consegue liderar pessoas? Como a gente vai se aprimorando a cada dia? Porque é sobre isso. Hoje eu me acho melhor do que fui ontem. Só existe um papel para o líder: servir. A gente precisa escutar e resolver a dor do outro, o problema do outro.

Então como eu posso servir? Isso não quer dizer que a gente vai fazer todas as vontades. Não. Porque a gente precisa servir de uma maneira geral. Um líder precisa ter um olhar 360º e se colocar a serviço.

Eu nada mais sou aqui dentro do que alguém que se coloca para resolver o problema das pessoas. Eu sou a pessoa que trabalha para todas as pessoas que trabalham aqui. Esse é o lugar que um líder tem que estar.

Fever: Muitas mulheres sonham em abrir o próprio negócio, mas têm medo de dar o primeiro passo. O que você diria para elas hoje?

Julia: Eu sou a fã número um de pequenos passos com constância. Quando a gente sonha, precisa sonhar grande, mas começar com passos pequenos. A coisa que mais imobiliza as pessoas é olhar para o sonho já pronto. Aí você não sabe por onde começar. Mas se você dá o primeiro passo com o que tem, isso fica mais fácil.

A pergunta tem que ser: “O que eu tenho comigo agora que eu posso começar agora?” Eu entendo onde quero chegar, mas agora, o que posso fazer? Isso tira a gente de um lugar de procrastinação. Então eu acho que é isso que faz a gente tirar grandes sonhos do papel: pequenos passos.

Fever: Em um mercado cada vez mais competitivo, qual a importância de construir uma marca forte e não apenas oferecer um bom serviço?

Julia: Eu sou a pessoa que adora repetir uma frase da Cris Junqueira, do Nubank: “foca no seu”. Às vezes a gente perde muito tempo olhando o que o vizinho está fazendo, como ele está fazendo, e isso só vai te colocar no segundo lugar. Como você cria uma marca top of mind? É entendendo que você está focando no seu.

Quem olha para os concorrentes detalhando muito o que as pessoas estão fazendo são os segundos colocados. O primeiro lugar está olhando para outros lugares. Eu adoro olhar para negócios que não têm nada a ver com o meu. Faço muitos cursos em que olho em volta e não tem ninguém da área da saúde. Tem gente que trabalha com petróleo, tem gente que trabalha com avião, e lá estou eu.

Porque eu acho que a gente precisa ampliar a nossa visão e depois voltar e focar no seu. É isso que faz a gente construir uma marca forte.

Fever: Quando um paciente entra na StarClínica, qual sensação você gostaria que ele tivesse antes mesmo de iniciar qualquer atendimento?

Julia: O nosso nome está mudando, mas a missão que a gente carrega na nossa clínica não muda. Porque é sobre o que a gente faz. Todas as vezes que um paciente entra aqui, ele tem que sentir essa energia: “a gente te ajuda a viver sem limites”. Esse é o nosso grande propósito. Eu queria que, quando ele entrasse por aquela porta, entendesse que aqui dentro ele deu o primeiro passo para não viver com limites. Quando ele entra aqui, ele já tomou a decisão. 

“Esse joelho não vai me parar.” “Eu vou poder jogar bola com meu filho.” “Esse ombro não vai fazer com que eu deixe de fazer o esporte que amo.” É o paciente entrar aqui e entender que está entrando  para viver sem limitações.

Fever: O crescimento da empresa aconteceu junto com seu crescimento pessoal. O que a Julia de hoje aprendeu que a Julia de 2014 ainda não sabia?

Julia: Eu nem sei te dizer, porque são tantas coisas. Mas, se eu pudesse dizer uma coisa que fez toda diferença, é que a Julia de 2014 era uma menina que tinha muita vontade de fazer tudo aquilo acontecer e dar certo.

E hoje, em 2026, eu sou uma Julia que desenvolveu a pessoa, desenvolveu a espiritualidade, desenvolveu a Julia de dentro. Eu adoro chamar de “Julinha”. Aquela pessoa que antes precisava colocar uma armadura e ser forte. Hoje eu me permito desenvolver a Julinha, que pode desenvolver espiritualidade, que pode ser leve.

Eu acho que só a segurança faz isso com a gente. Quando realmente nos sentimos seguros, podemos soltar a armadura e desenvolver esse lado humano de uma forma mais carinhosa e leve para lidar com as situações.

Fever: Existe algum momento da sua trajetória que você guarda como uma das maiores conquistas da carreira?

Julia: A maior conquista, quando eu olho para trás na minha carreira, foi quando abri a minha primeira unidade. Essa vai ser sempre imbatível.

Nada que eu venha fazer até hoje supera a força e a coragem que tive para dar esse primeiro passo e montar uma clínica com sete salinhas, com um sonho e um dinheirinho contado. Nada supera, eu e meu marido juntos, porque somos sócios, termos dado esse primeiro passo que foi muito, muito desafiador para a gente. 

Então nada que eu venha a conquistar, vai superar. Eu vou sempre olhar para trás, e lembrar da nossa primeira unidade.

Fever: Quando você pensa nos próximos dez anos da StarClínica, qual é o sonho que ainda deseja realizar?

Julia: Quando eu penso qual é o sonho que mais desejo realizar, já me dá vontade de rir, porque ter três unidades e tudo que eu administro agora já é bem exaustivo.

Mas eu me sinto muito motivada a crescer, não somente pela Julia. Quanto mais eu cresço, mais as pessoas que trabalham comigo crescem. Se a Julia para, todas as pessoas maravilhosas que trabalham comigo não podem dar o próximo passo. Então, a cada passo que eu dou, eu abro mais espaço para outras pessoas crescerem também.

É isso que me motiva a abrir mais unidades, abrir mais salas, atender mais pessoas e levar saúde para mais pessoas. E quando vejo um paciente saindo daqui feliz, podendo realmente se cuidar e se curar, eu entendo que estou cumprindo o meu papel no mundo.

@juliabsneves