Canetas emagrecedoras: quais os riscos de transformar medicina em tendência?

As chamadas “canetas emagrecedoras” deixaram de ser assunto restrito aos consultórios médicos e se transformaram em um dos maiores fenômenos culturais dos últimos anos. O que começou como uma revolução no tratamento da obesidade rapidamente atravessou as fronteiras da medicina e passou a ocupar as redes sociais, as conversas entre amigos, os grupos de WhatsApp e até o imaginário coletivo sobre o corpo ideal.

Na Clínica Périssé, a endocrinologista Raquel Magalhães Gabriel acompanha de perto esse movimento. Segundo ela, os novos medicamentos representam um dos maiores avanços da endocrinologia moderna, mas também revelam uma relação cada vez mais complexa da sociedade com emagrecimento, imagem corporal e performance.

“Vivemos numa cultura de otimização. Queremos render mais no trabalho, dormir melhor, envelhecer menos e também atingir um corpo considerado ideal. O emagrecimento entrou nessa lógica do upgrade pessoal, impulsionado pelas redes sociais, que amplificam resultados e transformações em tempo real.”

O impacto dessas medicações ajuda a explicar o tamanho da repercussão. Medicamentos como liraglutida, semaglutida e tirzepatida atuam em mecanismos hormonais ligados à fome, saciedade e metabolismo e vêm produzindo resultados que até poucos anos atrás eram difíceis de alcançar sem cirurgia bariátrica. Estudos clínicos mostram perdas médias de aproximadamente 8% do peso corporal com liraglutida, cerca de 15% com semaglutida e resultados que podem ultrapassar 20% com tirzepatida em muitos pacientes.

No Brasil, dados da pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, mostram que mais da metade da população adulta apresenta excesso de peso e que a obesidade continua crescendo ano após ano. O problema está diretamente relacionado ao aumento do risco de diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, apneia do sono, alguns tipos de câncer e diversas outras complicações metabólicas. Por isso, a especialista reforça que o surgimento dessas terapias representa uma conquista importante da medicina.

Mas, um dos desafios começa nas redes sociais, com vídeos de transformações físicas acumulam milhões de visualizações. Influenciadores compartilham resultados em poucas semanas. Celebridades são constantemente associadas ao uso das medicações. Em muitos casos, o debate sobre saúde acaba sendo substituído por uma corrida em busca da próxima solução rápida para emagrecer.

“Existe um ponto de atenção quando a busca deixa de ser por saúde e passa a ser apenas pela silhueta ou por uma exigência estética e social. Muitas vezes o paciente não apresenta critérios clínicos para uso da medicação, mas deseja utilizá-la porque viu transformações nas redes sociais ou porque quer emagrecer rapidamente para um evento específico.”

Essa mudança de comportamento preocupa porque a velocidade de popularização dos medicamentos tem sido maior do que a compreensão pública sobre como eles funcionam. Os medicamentos não são produtos estéticos, eles atuam em sistemas hormonais complexos relacionados à fome, saciedade, metabolismo, esvaziamento gástrico e controle glicêmico. O tratamento exige avaliação médica, exames, investigação de contraindicações e acompanhamento contínuo.

“Hoje já observamos mercado paralelo, prescrições sem avaliação adequada e uso por pessoas sem indicação médica. A rede social costuma mostrar apenas o antes e depois. Ela não mostra os riscos da automedicação, os efeitos colaterais ou o que acontece quando uma medicação potente é utilizada sem critério médico.”

Raquel alerta que emagrecer não significa necessariamente estar saudável. Uma pessoa pode perder muitos quilos em poucos meses e, ao mesmo tempo, desenvolver deficiência nutricional, perda de massa muscular, fadiga intensa e alterações metabólicas importantes. Da mesma forma, alguém pode apresentar um peso acima do considerado ideal e manter indicadores metabólicos mais favoráveis do que aparenta.

A discussão também passa pela relação emocional construída em torno da comida e do próprio corpo. Quando o medicamento se transforma na única ferramenta de controle alimentar, existe o risco de reforçar comportamentos restritivos, dependência psicológica e uma percepção de que o valor pessoal está diretamente ligado ao peso corporal.

Enquanto a ciência continua avançando e novas terapias surgem com resultados cada vez mais impressionantes, a medicina tenta responder a uma pergunta que vai além dos hormônios e da balança. 

Afinal, estamos diante de uma revolução no tratamento da obesidade ou de uma sociedade cada vez mais impaciente diante do próprio corpo?

@clinicaperisse