A seletividade alimentar na infância é um fenômeno comum e desafiador que afeta diversas famílias ao redor do mundo. Ela acontece quando a criança aceita um repertório muito restrito de alimentos, recusa novos sabores, texturas ou cheiros e demonstra resistência nas refeições. Segundo a psicóloga Flávia Longo, essa fase costuma surgir entre os 2 e 6 anos, especialmente por três motivos: fase natural de afirmação da autonomia, redução fisiológica do apetite após o primeiro ano de vida e desenvolvimento sensorial mais sensível. É importante lembrar que, em muitos casos, é uma etapa do desenvolvimento, não um problema.
A diferença entre a fase normal do desenvolvimento alimentar e um quadro que merece atenção está na intensidade, duração e impacto. Na fase esperada ocorre a recusa de alguns alimentos, aceitação de variações semelhantes e mantém crescimento adequado. Já no outro quadro, está um repertório muito limitado com menos de 10 a 15 alimentos, recusa de grupos alimentares inteiros e apresenta reações intensas como ânsia, choro ou medo.
“Crianças que comem pouco, mas crescem bem e variam minimamente os alimentos, geralmente não precisam de intervenção clínica imediata. O alerta é quando a seletividade é intensa ou persistente, gerando sofrimento para a criança ou para a família e causando impacto na saúde, crescimento ou socialização.”
Os sinais que indicam que a seletividade pode estar impactando no desenvolvimento da criança são os déficits nutricionais frequentes, cansaço excessivo, irritabilidade, dificuldades de concentração, atrasos motores ou de linguagem e ansiedade intensa em situações sociais com comida. Experiências negativas como forçar a comer, castigos, recompensas, engasgos, vômitos, dor e comentários negativos podem gerar associação de perigo, também levando à rigidez alimentar.
“A alimentação é emocional desde o início da vida. A criança associa comida a segurança, controle, prazer ou ameaça. Ansiedade, medo, pressão ou conflitos tornam o momento da refeição um gatilho emocional e não uma experiência de nutrição.”
Para um bom comportamento alimentar é necessário que os pais possam oferecer a comida sem pressão, respeitar sinais de fome e saciedade, repetir exposições ao alimento sem obrigar, além de manter postura firme e acolhedora. Outros exemplos que ajudam nesse processo é o adulto comer os mesmos alimentos da criança, demonstrar curiosidade por novos sabores, evitar rótulos como “isso é ruim”, “engorda”, e mostrar prazer ao comer. Além disso, horários regulares, ambiente tranquilo e sem telas, e tempo suficiente para a refeição são estratégias que ajudam a criança a perceber fome, saciedade e reduzir ansiedade.
A psicoterapia é um aliado no tratamento do quadro, trabalhando as emoções ligadas à comida, controle, ansiedade e sensorialidade e a relação familiar com a alimentação. Segundo a profissional, em muitos casos a intervenção é principalmente com os cuidadores e a criança é incluída conforme idade e necessidade. Ela também explica que pode ocorrer trabalho conjunto com nutricionista e outros profissionais que possam auxiliar no processo da alimentação.
@uniclincampos






