Likes não curam

Devido a popularização das redes sociais e a mudança de comportamento entre as gerações, até mesmo a forma de escolher um médico se modificou, passando a depender da idade e da maneira como cada pessoa se informa. Enquanto os mais jovens preferem buscar referências no TikTok ou Instagram, os millenials ainda procuram através de indicações de amigos. Já a geração prateada, recorre ao tradicional livrinho do plano de saúde.

Segundo a médica Mariana Porto, que recebe diariamente pedidos de indicação de profissionais, essa transformação reflete uma tendência mais ampla onde a medicina entrou na “era da audiência”.

“Hoje, muitos pacientes associam número de seguidores à qualidade profissional. Mas o fato de o médico ser popular nas redes não garante que ele seja o mais preparado ou o mais indicado para o seu caso”, explicou.

A especialista ressalta que a grande arte da medicina é a relação médico-paciente, construída com empatia, confiança e escuta. Para ela, formar-se como médico, ter conhecimento técnico, residência, mestrado, doutorado, entre outrasqualificações, não é a parte mais difícil da profissão, mas sim tornar-se um bom médico. 

“Ser um bom médico não é ensinado na faculdade, em curso ou residência. Isso vem dos valores de cada um, dos exemplos que teve durante a vida e do talento e dedicação. O médico pode ser o melhor tecnicamente, o mais bem formado, o que mais casos viu, pode ser formado nas melhores universidades e não conseguir cativar seu paciente, não passar confiança e consequentemente não ser escolhido”, afirmou.

Segundo Mariana, a melhor maneira de encontrar um bom profissional ainda é por meio de recomendações de pessoas de confiança como familiares, amigos ou profissionais de saúde. Escolher um ponto de partida confiável vai te direcionar, a partir daí, a criar uma relação com um médico, pois é a confiança e o relacionamento com um profissional que muda tudo, até mesmo no momento que precisa passar por determinado procedimento.

“O médico de família tem essa função, que antes era muito exercida pelos clínicos gerais, aqueles que cuidavam de toda a família, sabiam de tudo, aquele médico que ia à nossacasa, prática hoje escassa e que faz muita falta. Os ginecologistas assumem muito esse papel na saúde da mulher, por exemplo”, compartilhou a médica.

Hoje, com o mundo digital, as escolhas se tornaram um pouco mais difíceis de serem feitas devido à nova régua de “bom ou mau” profissional, medida pelo engajamento e sucesso nas redes sociais. Passaram a acreditar que o profissional que tem 120 mil seguidores em uma rede social, pode ser melhor do que o profissional que tem 25 mil. Ou até mesmo os médicos que não estão presentes nas plataformas ou tem o perfil fechado, passaram a ser desconsiderados por não estarem presentes ativamente na Internet. 

Mariana afirma que a medicina entrou na guerra da audiência, onde quem é mais visto é o melhor.

“Sinto decepcionar, mas de longe não tem como saber. Você nunca saberá se o médico com mais seguidor é realmente isso tudo até que você esteja diante dele, ou até que você escute isso de alguém que confia nele como médico e é aí que eu te digo como procurar seu médico”, pontuou.

Ela explica que o Instagram, por exemplo, é uma excelente ferramenta para que as pessoas conheçam novos médicos na sua região e saibam sobre quais assuntos ele mais estuda, e essa deveria ser a função das mídias sociais médicas. Outro ponto importante que as redes podem ajudar é saber quem do seu convívio conhece aquele profissional, e assim, buscar referências sobre ele. Porém, cada paciente tem uma experiência única e diferente com cada profissional, principalmente quando se trata de algo tão importante quanto a saúde. Por isso, a médica costuma dizer que a primeira consulta é um fator importante para criar uma relação com o paciente. “Se ali você não for cativado, se ele não conquistar a sua confiança dificilmente terá outra chance, e hoje em dia, com a facilidade de se encontrar outro profissional, isso fica muito mais evidente”, explicou.

Por fim, Mariana deixa um conselho aos colegas médicos. “Relacionamento é mais importante que seguidor. Tratar bem é mais importante que o tráfego pago. Ser bom médico vem antes de parecer bom médico. Tem que ser bom médico todo dia, com a câmera desligada e só com um único seguidor: o seu paciente!”, finalizou.

@portomariana