Arte provocativa e indisciplinar

Por Marina Bruno

Nascido em São Fidélis, a cidade poema do Rio de Janeiro, em 1976, Alexandre de Carvalho Mury cresceu cercado por materiais, texturas e gestos que mais tarde moldariam seu olhar artístico. Filho de um marceneiro e pedreiro, e de uma costureira perfeccionista, ele aprendeu desde cedo a valorizar tanto o rigor técnico quanto a liberdade criativa. “Dessa tensão nasceu meu olhar artístico”, conta Alexandre.  

Hoje, aos 49 anos, Mury é artista, curador, comunicador social e pesquisador independente, com uma trajetória que transita entre o desenho, a fotografia, a escultura, o vídeo, a performance e a instalação. “Gosto da ideia de ‘artista indisciplinar’, mas me defino como multidisciplinar”, diz. Em suas obras, a materialidade assume papel conceitual, uma metalinguagem que questiona e desestabiliza o espectador.

“A beleza, para mim, está nas ideias. Muitas obras foram feitas para não serem ‘gostadas’. É no desconforto que começa a fruição estética.” 

O trabalho de Mury se destaca com a fotografia, o autorretrato e a performance. O artista alcançou destaque por meio de seus ‘tableaux vivants’, nos quais recria obras canônicas de renomados artistas da história da arte, incorporando desenhos, pinturas, esculturas, instalações e cenografia.

Sua entrada no mundo das artes aconteceu em 2010, quando o marchand Afonso Costa o apresentou ao circuito do Rio de Janeiro. Naquele mesmo ano, Joaquim Paiva adquiriu suas primeiras fotografias, e Gilberto Chateaubriand incorporou duas delas ao acervo do MAM-Rio. “Foi a primeira vez que expus num museu, já com obra em coleção permanente”, relembrou.

Alexandre Mury é um artista multidisciplinar que utiliza uma variedade de materiais e técnicas que provocam reflexões sobre temas como a cultura popular

Entre 2010 e 2012 iniciou a série de autorretratos, com obras como AbaporuCristo Redentor e A Criação de Adão. Participou de Genealogias do Contemporâneo (MAM-Rio) e Espelho Refletido (Centro Hélio Oiticica). Em 2013 realizou a individual Fricções Históricas (Caixa Cultural RJ). Mais recentemente, no ano passado, destaque para a ocupação Formas Múltiplas de Continuidade no Espaço (Casa de Cultura Villa Maria) e neste ano, para a coletiva que apresenta no CCBB São Paulo, com itinerância nacional. 

Com formação plural – mais crítica do que acadêmica – Mury dialoga com diferentes períodos da história da arte, do clássico ao pós-conceitualismo. “Não tenho diploma em Artes Visuais, mas me formei artista bebendo em fontes teóricas, críticas e historiográficas”, afirmou. Suas influências são vastas: vão de Tarsila e Oiticica a Tunga e Mira Schendel, passando por nomes como Siron Franco, Amílcar de Castro e Anna Maria Maiolino.

“Todos eles me ensinaram a desconfiar da pureza das linguagens e a buscar fricções entre corpo, imagem e ficção.”

Nos últimos anos, Mury vem incorporando novas linguagens ao seu processo criativo. Após sua ocupação em 2024, passou a explorar coautorias, happenings, tecnologia e obras sonoras. Seus próximos projetos incluem uma pesquisa sobre o folclore do Ururau da Lapa; a rara Cattleya fidelensisuma orquídea endêmica de São Fidélis; além de estudos sobre angeologia bíblica e bioarte. Paralelamente, prepara dois livros (um ensaio e um romance) e um roteiro de cinema.

Em suas obras, há espaço para ambiguidade, erotismo, humor, melancolia e ironia. “Minha marca é a tensão constante entre contrários, sustentada pela memória e pela resistência contra o apagamento”, afirma.

Olhar sobre o Brasil e o tempo presente

Provocador e lúcido, Mury rejeita rótulos nacionais. “Acho essa ideia de ‘ser brasileiro’ uma cilada. O Brasil é mistura indomável. Nossa força está justamente na impossibilidade de definição. Somos antropófagos: devoramos tudo e cuspimos algo novo, irreconhecível. A arte brasileira não importa porque nos define, mas porque nos liberta de qualquer definição.”

Sobre o momento atual das artes no país, ele vê um panorama ao mesmo tempo confuso e fértil: “Há reparação histórica, protagonismo indígena e afro-diaspórico, emergências ambientais e o impacto das novas tecnologias. Mas também há supervalorização de egos e cooptação de narrativas. Cabe ao artista resistir à hipnose digital e criar experiências que mobilizem pensamento”, reflete Alexandre.

Para Mury, a arte não é uma escolha, mas um modo de existir. “Nunca precisei de certeza; nunca consegui evitar. A arte é indissociável da minha existência. Vivo entre invenção, memória e crítica, sempre no fio da contradição”, finalizou.

Obra: O violinista verde (2015), de Alexandre Mury. Fotografia/ Autorretrato performático, reinterpretando a obra O violinista verde (1923) de Marc Chagall