Graduado em arquitetura e urbanismo pelo Centro Universitário Metodista Bennet, bisneto de Oscar Niemeyer e filho dos arquitetos Walter Makhohl e Ana Elisa Niemeyer, Paulo Sérgio Niemeyer comanda o escritório de arquitetura que leva o sobrenome da família, além de presidir o Instituto Niemeyer, que também ajudou a criar ao lado do bisavô.
Disposto a manter o legado de Oscar no escritório, Paulo ainda comanda a marca Niemeyer que engloba além dos projetos, uma linha de produtos entre móveis, porcelanatos, azulejos, tapetes, entre outros. Em entrevista à Revista Fever, o arquiteto fala sobre legado, autenticidade e o futuro das cidades.
Fever – Você participou da construção da UENF em Campos. Como foi acompanhar esse projetotão emblemático para a cidade e qual a importância dele para a sua trajetória como arquiteto?
Paulo – Participei e presenciei a construção. Foi um projeto superimportante pela relação do Darcy Ribeiro com meu avô. Eu lembro, como se fosse hoje, o entusiasmo do Darcy quando viu a implantação do projeto, dizendo que lembrava um cocar indígena. O Darcy tinha uma história muito forte, com livros escritos sobre a população indígena e o Oscar teve essa sensibilidade que acabou, intuitivamente, criando algo que, para o Darcy, era muito emblemático. Ver essa amizade, esse companheirismo, era muito bonito e ter participado foi muito gratificante. Foi um dos primeiros projetos de grande porte, com vários blocos do qual eu participei, inclusive, desenhando, vendo as plantas e participando de várias etapas, até o executivo. Para mim foi muito importante entender essa dinâmica.
Fever – Sobre o escritório Niemeyer Arquitetos Associados, você comanda ele sozinho?
Paulo – Sim, toco sozinho. No escritório tem a minha equipe que colabora comigo e as parcerias que a gente, eventualmente, desenvolve para projetos específicos. Estou muito feliz por ele estar crescendo cada vez mais. A gente está com parcerias em São Paulo, Norte e Nordeste, Região dos Lagos e com vários projetos importantes. Poder administrar uma estrutura dessa, com tantas possibilidades, me deixa muito contente.
“Oscar foi um grande político, um grande maestro de muitos projetos”
Fever – Como é carregar a assinatura de um dos sobrenomes mais icônicos da arquitetura? De que forma você trabalha para manter esse legado?
Paulo – Tudo na vida tem prós e contras. Admito que carregar um sobrenome desse icônico da arquitetura que, inclusive, como eu falo nas palestras que eu dou, não é só da arquitetura. O Oscar era uma referência também na literatura. Escreveu alguns livros interessantíssimos, tanto de ficção quanto técnicos de arquitetura. Ele foi um grande artista, escultor. Ele atuou em várias áreas: foi editor, teve revista, como a revista Módulo, criou vários outros projetos. Era um incansável da arte e da cultura. Por isso, acaba sendo respeitado em vários segmentos como formador de opinião, inclusive, na política. Oscar foi um grande político, um grande maestro de muitos projetos. Eu fico muito orgulhoso de manter esse legado e tento trabalhar para mantê-lo, primeiro defendendo o trabalho do Oscar como um trabalho histórico que deve ser tombado, mas principalmente a originalidade do trabalho do Oscar, que é um trabalho que a gente está fazendo. Os projetos que foram descaracterizados, e que o Oscar não aprovava, não são Oscar Niemeyer. Não tem relação. E, quando o projeto respeita o que ele pensava, os conceitos que ele valorizava, você tem que chancelar e valorizar. A referência do que ele queria e como ele pensava tem que ser preservada, porque, senão, o artista se afasta do produto. E claro, eu me inspiro muito no trabalho dele. É o tipo de arquitetura que eu tenho prazer e que me agrada, então acredito que o meu trabalho é uma forma também de manter o legado dele.

Fever – Você tem desenvolvido projetos assinados pela marca Niemeyer. Quais são os mais recentes?
Paulo – Tenho vários projetos assinados com a marca Niemeyer e os mais recentes são o estádio; o projeto de uma vila olímpica; a Torre Niemeyer, na Barra da Tijuca, inclusive dando o nome de Niemeyer 360. Uma torre da década de 1970 que a gente fez a repaginação dela para poder aperfeiçoar, porque estava abandonada. Tem também exposições, obras públicas e de legado, principalmente, e projetos públicos que ele deixou inacabados e que eu tive o prazer de ser coautor e participar.
Fever – Quais são os projetos mais recentes que estão em andamento ou foram entregues esse ano?
Paulo – Das construções, a mais recente é a Torre Niemeyer, que eu tive o prazer de fazer e retomar um projeto muito antigo, que já tem 50 anos e que hoje está revitalizado. Hoje, é a torre mais alta do Rio. São vários lofts e a gente conseguiu entregar e solucionar muitos problemas que não estavam resolvidos pelo motivo da construtora ter falido. A estrutura ficou abandonada por esses anos todos, passando por várias construtoras. A gente foi chamado para desenvolver com uma empresa parceira, de Brasília, e é uma realidade a torre estar sendo entregue. Isso me deixa muito feliz.
Fever – Existe alguma linha de produtos que seja a sua favorita?
Paulo – Ah, tem várias linhas de produtos. Estou muito feliz com a linha de porcelanato e metais que a gente está desenvolvendo em uma parceria com a China. Tem a coleção Niemeyer com a Acqua, de louças e metais sanitários. Tenho um apreço especial com a Studio Vetro, que me trouxe azulejos, resgatando também a ideia do painel mural. É uma parceria com os arquitetos. Eles compram os azulejos isolados, como se fossem módulos, e você pode montar o painel da forma que achar melhor. E tem a linha de tapetes também com a Cartacho.
Fever – Quais projetos para o futuro mais te empolgam?
Paulo – A expansão do escritório e do meu trabalho como arquiteto. Estamos com muitos projetos para a região de Rio das Ostras, a Região dos Lagos, Campos, Macaé, com a abertura também de um escritório na região. Para o futuro são esses projetos: consolidar o escritório, que é o que mais está me empolgando, a possibilidade de estar discutindo não só a arquitetura, o projeto em si, construtivo, mas também o trabalho com o poder público, pensando áreas urbanas, parques, áreas verdes, que aprendi muito com o Oscar e Burle Marx. Fazer a obra pública junto com o Instituto Niemeyer, que eu presido e criei, junto com o meu avô. Eu estou super empolgado com esses projetos, que levam a assinatura Niemeyer.
Fever – Conta pra gente sobre os projetos para o interior do Rio de Janeiro.
Paulo – No interior do Rio de Janeiro tem esse do estádio, que é um complexo esportivo. Eu estou muito animado com a perspectiva dele e de outros projetos regionais que a gente está discutindo, ajudando várias prefeituras a pensar em cidades do futuro. Inclusive, o projeto que tem muito a ver com o tema, que está muito em voga hoje, que é o projeto da Cidade-Esponja, do nosso amigo, esse grande arquiteto chinês, Kongjian Yu, que faleceu recentemente no Brasil em um acidente aéreo. Temos expertise em projetos como este. Muito antes desse conceito da Cidade-Esponja, isso já era uma referência na nossa arquitetura, principalmente, na do Oscar. Vários projetos do Niemeyer, e que a gente mesmo faz, já pensavam nessa questão da água como referência no projeto, haja visto os espelhos d’água de Niemeyer, e um projeto bem emblemático em São Paulo, na Marginal Pinheiros, que na década de 1980 ainda, que o Oscar previa, inclusive, o alagamento de uma área bem grande da Marginal Pinheiros, que já era o preceito das Cidades-Esponja. Essa questão das cidades alagáveis, como é no Ibirapuera também, em São Paulo, que em uma área verde grande, eaquele grande espelho d’água flui organizando o espaço, integrando com a natureza, criando aquela beleza que é o Parque Ibirapuera. Fico muito contente de poder criar os parques aí na Região dos Lagos.
Fever – Como você enxerga a arquitetura brasileira hoje? Tem uma identidade própria?
Paulo – Bem, eu tenho um pouco de tristeza de falar de arquitetura brasileira. Eu acho que ela está um pouco perdida, porque a negação ao projeto, aos nossos mestres brasileiros, me preocupa. E o pastiche, aleatoriamente, usando as referências, às vezes, acho que isso compromete um pouco. O que não quer dizer que não tenham grandes arquitetos no Brasil. Porém, acredito que a arquitetura está muito replicada, sem criatividade e muito influenciada pelo que é feito fora do país e o Brasil perdendo um pouco da identidade, uma característica muito forte na época da arquitetura do Oscar, da arquitetura paulistana. Acho que o Brasil está de novo renegando sua arquitetura, seu trabalho, para poder dizer que a arquitetura que vem de fora é tão boa quanto ou melhor. Tudo bem que seja, mas não acho que deve ser nossa inspiração. Eu valorizo a inspiração que vem de dentro da gente, do nosso povo, dos povos originários. Respeito amigos que estão trabalhando com a influência da arquitetura indígena, uma referência muito forte hoje em dia.

“Acredito que a arquitetura brasileira precisa estar referenciada no nosso Brasil, que é gigante e que tem muita referência e criatividade.”
Fever – Qual lugar hoje está mais avançado na entrega de uma arquitetura que converse com o aquecimento global?
Paulo – Eu acho que a China. Ao mesmo tempo que a China polui, ela tem um compromisso, um esforço muito grande de criar cidades com melhores qualidades de vida. Mas o Brasil tem tudo dentro do Brasil e já trabalha essas ideias há muitos anos. Várias cidades estão pensando nisso. Até Brasília, com todos os defeitos, uma cidade modernista, tem várias questões sustentáveis. Inclusive,o Oscar estava empenhado nisso, tanto que, um dos pontos que eu levo em palestras, é que o Oscar estava querendo resolver questões muito importantes da proteção da área verde e da mobilidade urbana.
Fever – De que maneira você acredita que a arquitetura pode ser, não apenas bela, mas útil diante dos desafios das mudanças climáticas?
Paulo – Não é porque a arquitetura é mais bela que vai estar em desacordo com o que se pede nos dias atuais e futuros para questões climáticas. Você pode fazer uma arquitetura bela, arrojada e ela ter as questões de sustentabilidade. Isso vai estar sempre andando junto e cada vez mais. Essa é a resposta dos tempos atuais pra frente.
“O arquiteto e urbanista que estiver projetando, pensando na sustentabilidade, também, agregando não só a questão da mudança climática, mas a acessibilidade, todas as questões que trazem melhoria para a cidade, ele está conversando com uma cidade mais homogênea, uma cidade mais justa, uma cidade mais equilibrada e mais generosa para quem vive nela.”




