Ela lidera!

A revista Fever bateu um papo descontraído com Fátima Pacheco, ex-prefeita do município de Quissamã eleita em 2016 e reeleita em 2020, primeira mulher a ocupar o cargo no município. Formada em Serviço Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Fátima ocupou o cargo de assistente social com mais de 30 anos de dedicação ao serviço público e foi vereadora por dois mandatos, sendo a primeira mulher eleita vereadora na Câmara Municipal de Quissamã. Já presidiu o Consórcio Público Intermunicipal de Desenvolvimento do Norte e Noroeste Fluminense (Cidennf) e liderou iniciativas de desenvolvimento regional como a implementação do projeto “Caminhos do Açúcar”. Hoje, ocupa o cargo de Coordenadora de Parcerias Regionais na Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur). Nesta entrevista, Fátima falou sobre mudanças, liderança e futuro. Confira.

A liderança feminina na gestão pública tem crescido, mas os desafios ainda são enormes. Conversamos com Fátima Pacheco sobre liderança, gestão e futuro.

Fever – Como é liderar uma prefeitura?

Fátima – No segundo mandato eu fiz um curso de Gestão de Pessoas. Foi um marco. Mudou a forma como eu lidava comigo. Eu era uma carrasca comigo, eu era desumana comigo nessa coisa de acertar e engolir o choro, aguentar tudo, não ter carga horária… Nessa de entregar mais pra cidade, você cobra muito dos secretários. Um dia eu fui procurada em casa por um engenheiro que tinha 30 anos de prefeitura como eu. Ele começou a falar e começou a chorar na minha frente, dizendo que um secretário tinha falado com ele aos gritos. E naquela semana, eu tinha apertado muito esse secretário. Ele só repassou a pressão. Pedi desculpas, fiz o secretário pedir desculpas e de lá pra cá sou muito atenta a isso.

Fever – Você acredita que existe outra forma que não o exemplo para liderar?

Fátima – O exemplo é a melhor forma de você liderar. Não adianta fazer um discurso lindo e na prática, no dia a dia, você fazer outra coisa. Mas o modo como você se comunica também é muito importante. E a comunicação interna também é muito importante, porque você tem uma equipe muito grande na prefeitura, né..

Fever – Como a gente treina a escuta?

Fátima – Essa pergunta é a pergunta do milhão, né? Dificílimo treinar a escuta, né? Porque se você não tiver um filtro, você escuta fofoca, inveja da liderança do outro. Mas se você não tiver escuta, você pode cair na blindagem. Eu, no começo do mandato, tive resistência de escutar. Depois eu comecei a enxergar de forma muito mais ampliada. Hoje, minha atenção para a escuta está muito mais ampliada.

Fever – Os bajuladores, você identifica bem?

Fátima – Os bajuladores eu não ouço. Hoje, identifico de longe. E detesto.

Fever – Qual seu perfil de liderança?

Fátima – Meio do caminho. Um pouco centralizadora, mas a gente vai mudando também. Depois de dois mandatos de prefeita, eu tenho um doutorado! Ninguém fica no mesmo formato. O segundo mandato é muito libertador. O primeiro é muito refém, muito dedo de muita gente. Hoje, de fora, vejo claramente: colocou gente ruim em um lugar, o lugar vai ladeira abaixo.

Fever – E você conseguiu escolher bem? Equilibrar a decisão política com a decisão mais técnica?

Fátima – Sim, mudei muito. Mais segura, inclusive no lidar com a Câmara, que é uma questão também inquietante para os governantes. Precisa ter tato, porque não ter o parlamento, é não governar e você também não pode entregar tudo.

Fever – E você tinha a Câmara?

Fátima – Tinha. Mas no segundo, uma câmara muito mais resolutiva.

Fever – Você tem o compromisso de trazer pessoas mais jovens para as posições de liderança?

Fátima – Com certeza, jovens e mulheres. Meu governo foi de metade dos secretários homens e a outra metade de mulheres, e as mulheres entregavam muito. E sobre a juventude, eu criei um programa de primeiro emprego chama- do Juventude Ativa e Juventude Ativa Mais. Eles chegavam tímidos e depois de dois meses eram outras pessoas. Altamente resolutivos, faziam a máquina andar. E você olhava para aquele rosto, era outro rosto. Essa questão da oportunidade, ela muda a vida.

Fever – Você gostou mais de ser vereadora ou prefeita? 

Fátima – Gostei mais de ser prefeita. Porque como vereador você indica, faz projeto. Como prefeita, você executa, consegue realizar. A caneta é sua. Na pandemia a gente salvou, literalmente, vidas. E numa cidade pequena, eu sabia todo mundo que estava entubado. É uma relação muito próxima. Por exemplo, Eduardo Paes é prefeito de uma mega cidade, mas ele não vive isso, é distante. Os prefeitos de cidade pequena, sem dinheiro pra nada, eles sofrem muito, mas temos uma safra muito boa. Pena que a política é tão demonizada, né? Todo mundo olha para a política como se fosse um esquema, uma ladroagem. Eu acho que desacreditar na política é perigoso.

Fever – De quando você foi vereadora, até entregar o seu cargo de prefeita, o que você vê de transformação para a mulher neste lugar de destaque na política?

Fátima – Em Quissamã com certeza a situação mudou. Quando fui vereadora, eu e mais uma colega fomos as primeiras mulheres vereadoras. Então, isso já foi uma influência. Eu fiz dois mandatos muito atuantes na questão da mulher. Percorri a região toda para implementar uma política voltada para as mulheres, fiz muitas rodas de conversa e as mulheres se viam mais na gente. Tanto que em 2012 já houve um número maior de mulheres candidatas à Câmara. Eu perdi a eleição para prefeitura em 2012 e perder às vezes é ganhar, porque você ganha maturidade.

Fever – Quais políticas para as mulheres foram implementadas na sua gestão?

Fátima – A gente implementou muitas vagas de creche. Eu criei um programa de combate à violência doméstica, com a patrulha Maria da Penha e uma sala Girassol dentro da delegacia, que passou a garantir um atendimento mais humanizado, mais privativo, com uma equipe multidisciplinar. A gente ampliou o número de denúncias. Na educação, a gente implementou o “Família na escola”. Porque fica muito a cargo da mulher, a educação dos filhos. E saímos de 30 pais por escola para 300, 500 por reunião, dependendo do número de alunos.

Fever – Qual maior legado você deixou?

Fátima – Com certeza foi na educação. A gente chegou ao maior IDEB do Norte Fluminese, com investimentos em creche, em escola, na comida dessas crianças, no transporte, na tecnologia. E aí, tablet para os alunos, computador para os professores, internet gratuita e catraca na porta das escolas.

Fever – Em algum momento da sua vida você percebeu que o seu gênero era um fator limitante? Não para você, mas para o outro?

Fátima – Em algumas reuniões. Às vezes todo mundo estava falando e quando eu ia falar, surgiam várias vozes. E aí, você tem achar essa linha tênue pra não parecer truculenta.

Fever – O que você diria para as meninas da geração Z, que estão hoje começando uma carreira e pensando em ocupar um cargo de liderança?

Fátima – Persista. Não será fácil, vão tentar apequená-la, vão tentar colocar algum rótulo, mas é persistir. E assim, pra mim é muito claro, nada vence o trabalho.

Fever – Quais lideranças te inspiram?

Fátima – Na política, Benedita é uma pessoa que me inspira muito pela história dela. A ministra Carmén Lúcia, acho uma figura potente na defesa das mulheres, principalmente. E muitas mulheres do dia a dia, que não são famosas, mas que são tão fortes.

Fever – Sobre seu trabalho na Embratur. Como você enxerga hoje, a possibilidade do turismo internacional no interior?

Fátima – O turista não quer mais somente as grandes cidades, aquela viagem empacotada. A gente tem muito potencial, mas precisamos preparar as nossas cidades, porque, historicamente, o turismo enquanto política pública, chegou recentemente para as prefeituras. O que os prefeitos fazem? Eles investem naquilo que é mais urgente. Saúde, educação, infraestrutura. Eu acredito que no turismo é importante ter parcerias. O governo federal pode investir mais, o governo estadual pode investir mais, por- que arrecadam mais, inclusive. A riqueza histórica nós temos, a riqueza natural, nós temos. Temos um parque nacional em Quissamã, Macaé e Carapebus, que não perde nada para Bonito, mas talvez você chegue nessa cidade para almoçar no domingo, às 4h da tarde e não ache um espaço aberto. Então, a parceria da Embratur com as cidades vai ser importante pra isso, pra gente mostrar além do Cristo, do Corcovado e do carnaval. Por exemplo, a Embratur tem um diagnóstico recente de que quem mais visita o nosso país são os argentinos, no Rio, principalmente. Quando a Argentina declinou financeiramente, o que o Brasil fez, o que a Embratur fez? Foi vender o Brasil no Chile. E o número de chilenos no Brasil foi gigante esse ano. Então a parceria da Embratur com as cidades vai ser importante pra isso.

Fever – E o turista não vai em um lugar só, né?

Fátima – Não vai. Eu acho que essa coisa dos prefeitos trabalhando juntos, trabalhando em rede, facilita. Porque o turista, ele não vai em uma cidade, ele vai na região.

Fever – Qual a visão da Embratur sobre a nossa região?

Fátima – Tivemos uma reunião com o Cidennf e vai vir uma capacitação para cá, em três eixos. E nós temos duas agendas, uma é levar o Festival Caminhos do Açúcar para a cidade do Rio, estamos definindo um local na Zona Sul para ganhar visibilidade maior, e a segunda é com o BNDES, que tem várias linhas de financiamento.

Fever – Como você acha que a gente pode reduzir esse abismo da percepção das pessoas com relação ao interior e o turismo?

Fátima – É um abismo mesmo, porque a gente mostra imagens de Jurubatiba lá fora e as pessoas dizem: “como assim vocês têm isso? Nunca vi”. Acho que divulgação é trabalhar para que a própria cidade conheça as suas riquezas. Trabalhar isso desde a escola. E se o privado não chegar, só o público não dá conta disso. O restaurante, o resort, os chalés, não vai ser a prefeitura que vai construir.

Fever – E a importância do Festival

Caminhos do Açúcar?

Fátima – Foi muito pedagógico. Porque nós começamos em quatro cidades e chegamos a 21. Os moradores achavam que não mereciam tamanha estrutura. O próprio cidadão achava que não merecia aquilo. Disseram pra gente o tempo todo que a gente era da roça, que a gente mora longe, fala errado. Precisa virar essa chave e ofertar coisa de qualidade.

Fever – Como você se enxerga no futuro?

Fátima – Trabalhando.

Fever – E em 2026?

Fátima – Quero vir como candidata ao cargo de deputada estadual.

Fever – Você tem vontade de voltar para a prefeitura de Quissamã?

Fátima – Hoje eu não tenho essa vontade de voltar, só não quero que Quissamã sofra. Se Quissamã continuar andando pra frente, de fato eu não vou precisar fazer nenhum movimento. Acho que já dei a minha contribuição enquanto prefeita. Trabalhei o desapego, não fico pensando hoje na prefeitura de Quissamã. Penso na cidade.

Fever – E um bom líder faz…

Fátima – Dizem que um bom líder faz o sucessor. Eu queria muito fazer o sucessor.

Fever – Como é a Fátima em casa? Abandonou o pedal?

Fátima – De estrada sim. Eu malho muito, montei uma mini academia em casa.

Fever – E a Fátima mãe?

Fátima – Muito leoa! Muito chameguenta. Tenho um filho de 32 anos e cada momento hoje, pra mim, é muito valioso.

Fever – Você hoje pesa mais o que vale a pena?

Fátima – Conto o tempo, conto quem me tira energia. Porque a política judia muito da gente, já são 30 anos. Hoje eu respeito todo mundo, mas o desrespeito eu não aceito mais.

Fever – Quais valores são inegociáveis pra você? 

Fátima – O respeito. Quando falta respeito, você negligencia com o que você aprendeu lá na sua infância.. E eu nasci na roça. Lembro de papai me dizendo “se perder a vergonha na cara, é melhor morrer”. Então, assim, isso grita ainda hoje em mim. Ando em Quissamã de cabeça erguida.