
A coluna “De Líder para Líder” trouxe nesta edição dois grandes empresários de Campos: Fabrício Bastos, treinador com mais de 17 anos de experiência e fundador do Studio FB e da Mentalidade FB, que desde 2018 vem expandindo seu modelo de negócio e já está presente em quatro cidades de dois estados, com meta de chegar a dez unidades até 2028; e Gizelle Fernandes, contadora há mais de 25 anos e sócia da Peres & Fernandes, empresa que cresceu dez vezes nos últimos quatro anos ao apostar em tecnologia, processos e, principalmente, na valorização das pessoas. No bate-papo, os empresários falam sobre inovação, gestão de equipes e mentalidade empreendedora.
Fever – Como vocês equilibram a inovação com o padrão do serviço que oferecem?
Gizelle – É uma constância, na verdade. Um aprendizado contínuo, um treinamento constante da equipe para que você consiga implementar neles a consciência da necessidade da própria evolução e o quanto isso pode contribuir para o negócio. Acredito que precisamos manter esse treinamento diário, para que a equipe compreenda a importância de evoluir e, assim, consiga oferecer a contribuição que o negócio precisa. Olhar para a tecnologia aliada a um treinamento constante é, na minha visão, o que tem gerado resultados melhores e mais rápidos.
Fabrício – Exato. Um exemplo disso foi quando a gente introduziu a tecnologia Polar, fomos os primeiros no estado do Rio. Eu marquei uma reunião de treinamento com a equipe e foi assustador ver a reação deles: “Nossa, ferrou. Agora vai dar trabalho, porque agora é cadastrar aluno, colocar pulseira”. Mas eu tentei mostrar o que aquilo traria de respaldo, segurança, eficiência, como melhoraria na prescrição deles e também a experiência do aluno, e a visão do aluno diante daquela inovação. Quando eles entenderam que aquilo ia causar impacto na percepção e na vida do aluno, eles abraçaram a ideia. Mas não foi fácil.
Fever – Mas concorda que, quanto mais o negócio cresce, mais difícil é inovar?
Gizelle – Sim, inovar conforme o negócio cresce realmente fica mais difícil e mais caro. As soluções precisam ser mais avançadas, a equipe é maior, e tudo exige mais energia, mais tempo e mais dinheiro. Além disso, o desafio é manter os processos alinhados com a experiência do cliente. Se não houver cuidado, a burocracia afasta o cliente e complica a entrega da solução. Nosso maior esforço hoje é entregar rapidez e assertividade, sem perder a qualidade e o controle interno. O cliente não quer uma justificativa técnica, ele quer que o problema dele seja resolvido e rápido.
A percepção de valor hoje não está mais no excesso de entregas ou explicações técnicas. Está na experiência, no ambiente, no sentimento que você proporciona. Antes, era preciso mostrar um dossiê, agora é mais sobre como a pessoa se sente com o serviço. O cliente percebe quando você está tentando “vender o peixe”.
Fabrício – Quando o negócio cresce, a gente é engolido pelos processos e se não houver espaço dedicado à inovação, à experiência, você fica preso só na operação. Eu tento reservar um dia só para pensar em novas ideias ou melhorar a jornada do cliente, senão, vou ficar somente resolvendo problema. O difícil é equilibrar o que você sabe que é bom com o que o cliente realmente quer. Às vezes, ele não quer dados ou diagnósticos, ele quer a dor resolvida. Um exemplo é que eu queria fazer vários testes numa aula, mensurar e dar dados, mas o aluno não, ele quer ter uma experiência de treino completamente diferente. Também é preciso cuidar da forma como essa inovação é comunicada. Se você sofistica demais a entrega, o cliente não entende. Aí o custo para captar e convencer esse cliente cresce. No fim, quanto mais opções e serviços você oferece, mais difícil é para ele decidir, é como um cardápio cheio de opções demais num restaurante. A pessoa fica confusa e desiste de escolher. Além disso, com a velocidade da informação hoje, todo mundo está com pressa. E se você não simplifica, perde o timing da entrega e da conexão com o cliente.
Fever – Como vocês imaginam o negócio de vocês em cinco anos?
Gizelle – Eu estou na perspectiva de um crescimento bem acelerado. A gente veio de uma crescente e fiz um levantamento que a gente cresceu dez vezes de tamanho em um período de quatro anos. Sei que de lá até aqui foi um passo, daqui pro outro degrau é um passo muito mais difícil, mas a nossa expectativa é que daqui a cinco anos a gente chegue a pelo menos na faixa dos 3.000 clientes, mais 10.
Fabrício – Nossa meta era alcançar 10 unidades até 2028. Estamos em 2025 e já estamos indo para a nona, então agora é o momento de “arrumar a casa”. A gente acredita que primeiro vem o crescimento, depois a organização, o progresso, depois a ordem. Estava refletindo sobre isso por esses dias, onde quero estar daqui a cinco anos? Acredito que estaremos presentes em novos estados. Já atuamos no Espírito Santo, e os próximos passos devem ser Minas Gerais e São Paulo, talvez até Rio de Janeiro, capital. Mas, com certeza, Minas e São Paulo estão no nosso horizonte para os próximos cinco anos.
Fever – O que vocês querem aprender ou o que vocês acham que precisam desenvolver como líderes?
Fabrício – O maior desafio que enfrento hoje como líder é desenvolver novos líderes. Liderar uma equipe é uma coisa, mas formar líderes é um processo muito mais demorado e complexo do que eu imaginava. Você não encontra gente pronta. Quando encontra alguém qualificado tecnicamente, muitas vezes essa pessoa não tem a cultura da empresa, e isso pode prejudicar todo o time. Por isso, prefiro desenvolver internamente, mesmo sabendo que é difícil.
Se os líderes da minha empresa não entenderem que precisam formar outros líderes, o negócio não anda. É essencial que eles sigam com esse processo, porque eu já não consigo dar conta sozinho e se a máquina parar, desanda tudo. Com o tempo, percebi também que não posso esperar que todos pensem exatamente como eu. Cada um tem uma trajetória, valores e ritmos diferentes. Então, fui ajustando expectativas, tirando algumas responsabilidades e focando no essencial de manter a cultura, promover reuniões semanais e garantindo treinamento uma vez por semana.
Gizelle – Hoje percebo que meu maior desafio como líder é fazer com que meus líderes entendam que o desenvolvimento do time é responsabilidade deles também. Meu gargalo atual é inserir essa cultura no time. Quando não estão imersos nela, a primeira reação costuma ser achar que estou apenas transferindo minha responsabilidade. Por isso entendi que precisamos fortalecer o processo cultural da empresa. Só assim eles passaram a ter mais iniciativa, inclusive de buscar o próprio desenvolvimento. Muitos chegam esperando que a empresa os forme por completo, sem entender que o autodesenvolvimento também é essencial. Minha meta agora é criar um ambiente onde essa mentalidade se torne natural.
Fabrício – Qual é a principal característica que você precisou ter para empreender?
Gizelle – Foi a coragem! Porque empreender é isso, você entra primeiro, aposta antes de saber se vai dar certo, investe tempo, dinheiro, energia, tudo antes de ter qualquer garantia. É 50% de chance de dar certo, e mesmo assim você precisa ir. Muita gente fica esperando segurança, querendo ver o resultado antes de investir, mas se for esperar isso, nunca vai acontecer. Não fique esperando pelo momento certo, só vai.
Gizelle – Como que a gente faz pra diminuir ou mudar o ambiente de negócio conservador da nossa região?
Fabrício – Para mudar o ambiente é preciso romper com a zona de conforto. Muita gente usa o conservadorismo como desculpa para não crescer, mas o verdadeiro empreendedor tem uma cultura de crescimento. Ele é inquieto, está sempre buscando avançar, inovar, melhorar. Isso vale tanto para quem tem várias unidades de negócio quanto para quem tem uma só. Crescer não é só abrir filiais, é inovar em produto, atendimento, serviço e, é se reinventar constantemente.
Na nossa cidade, muitos negócios permanecem estagnados e eu costumo dizer que tudo o que para de crescer, morre. Se você mantém o mesmo cardápio, a mesma estrutura, a mesma abordagem, vai perder espaço. As pessoas hoje buscam experiências novas, querem variedade, querem se surpreender.
O contexto também mudou bastante, antes o comércio estava concentrado no Centro, depois na Pelinca, e hoje vemos bairros com bancos, mercados e serviços. É preciso acompanhar essas mudanças. O empreendedor precisa dançar conforme a música e ter poder de adaptação. Aquele que não se adapta, desaparece. Isso exige resiliência.
Também é importante entender que muitos negócios estão sendo assumidos por filhos que não aprenderam com os pais como gerenciar aquilo e o modelo de gestão que funcionava antes já não funciona hoje. Muita coisa mudou, como a forma de lidar com colaboradores, contratar, pagar impostos, se relacionar com o banco ou com sistemas de pagamento. A nova geração precisa buscar conhecimento e se preparar para esses novos desafios.






