Voando sobre as águas: A potência do kitesurf no norte fluminense

Entre ventos constantes e paisagens de tirar o fôlego, o Norte Fluminense está se consolidando como uma potência nacional no kitesurf. Mais que uma prática esportiva, o kite virou estilo de vida, impulsionando talentos, movimentando a economia local e transformando a relação da região com a natureza. 

Nas praias da região, as pipas coloridas já fazem parte do cenário. O vento nordeste, predominante no litoral de São João da Barra e São Francisco de Itabapoana, proporciona excelentes condições para a prática do esporte que estreou como esporte olímpico nas Olímpiadas de Paris 2024. Já nas praias de Farol de São Thomé, em Campos dos Goytacazes, e nas de Barra do Furado e João Francisco, em Quissamã, os ventos do quadrante sul e sudeste também favorecem a prática. Além do mar, a região conta com diversas lagoas ideais para o esporte, como a Lagoa de Cima e a Lagoa do Campelo, em Campos; a Lagoa da Garça, em Quissamã; a Lagoa de Gargaú, em São Francisco de Itabapoana; e as lagoas do Açu, de Iquipari e de Grussaí, em São João da Barra. O Rio Paraíba do Sul também é um ponto de velejo, especialmente nos trechos de Barcelos e no Pontal de Atafona, no encontro do rio com o mar. “Morar em uma região rica em belezas naturais e ventos favoráveis é um privilégio que poucos têm”, contou Luciano Paes, instrutor de Kitesurf e sócio-proprietário da Stark Kite School. 

Luciano Paes é professor homologado pela Associação Brasileira de Kitesur (ABK) e pela Confederação Brasileira de Vela (CBVela)

Luciano não apenas ensina o esporte, ele vive o kite intensamente. Formado em Educação Física desde 2006 e professor homologado pela Associação Brasileira de Kitesurf (ABK) e pela Confederação Brasileira de Vela (CBVela), o atleta já praticava surf, skate e outras modalidades esportivas radicais e, assim que conheceu o esporte, no verão de 2017, foi paixão à primeira vista. O professor acredita que o Kitesurf vai além da atividade física. 

Uma das experiências mais marcantes vividas por Luciano e sua equipe foi a realização de um “Mega Downwind”, descendo o litoral a favor do vento. Em um único dia, eles percorreram 185 quilômetros, saindo de Vila Velha, no Espírito Santo, até a praia de Santa Clara, em São Francisco de Itabapoana, no Rio de Janeiro. Foram sete horas e meia no mar, com poucas paradas para hidratação e descanso, em uma jornada que exigiu muito preparo físico e técnica dos participantes. A travessia desafiadora foi, segundo Luciano, uma das maiores e melhores sensações que já vivenciaram, não apenas pela extensão do percurso, mas pela superação coletiva e o sentimento de conquista ao chegar ao destino final. 

“O kitesurf é o esporte mais completo que já conheci, pois trabalha todo o corpo, requer bastante concentração, nos faz estar em contato direto com a natureza, dependendo única e exclusivamente dela, e apesar de ser um esporte individual, é praticado de forma coletiva, fazendo a socialização entre os praticantes. A sensação é de liberdade e nos sentimos mais vivos, empoderados, por ser desafiador e radical. Mesmo sendo um esporte de risco, é muito seguro se for praticado de forma consciente, nos deixando totalmente endorfinados e adrenalizados, e fazendo super bem pra saúde física e mental.”

A sensação descrita por ele é compartilhada por centenas de praticantes que, a cada ano, tornam a prática mais popular na região. A Associação de Kitesurf do Norte Fluminense (AKNF), presidida pela velejadora Isabelle Rabello, hoje reúne mais de 200 associados, e é responsável por organizar eventos, formar novos atletas e trabalhar pela preservação ambiental. “Com investimento certo, podemos nos tornar referência nacional. Já somos conhecidos por quem pratica, mas temos potencial para muito mais”, afirmou Isabelle.

Parte dessa visibilidade crescente se deve aos talentos que surgem no litoral fluminense e um dos principais nomes é o jovem Vittor Maciel Filho, o “Vittinho”. Aos 16 anos, ele já é tricampeão brasileiro de Kitesurf Hydrofoil e figura entre os melhores do mundo na categoria sub-17. “Não tenho plano B. Minha missão é representar o Brasil em uma Olimpíada”, afirmou. 

Filho de velejador e sobrinho de dono de. escola de Kite, Vittinho começou a praticar aos 8 anos, em Grussaí, e nunca mais largou. “Eu sou viciado na adrenalina da competição. Cada pódio é uma confirmação de que estou no caminho certo”, afirmou. E se engana quem pensa que foi tudo fácil, no último Mundial IKA 2024, na Itália, além dos desafios na água, Vittinho enfrentou problemas com equipamentos e ainda precisou cuidar do pai, que adoeceu durante a viagem. O atleta contou que foi uma das experiências mais difíceis e transformadoras da sua vida.

“Este ano será bastante movimentado. Fui convocado pela Confederação Brasileira de Vela para representar o Brasil no Mundial da Juventude World Sailing 2025. Então, além das etapas do Brasileiro onde eu preciso defender meu título, planejo disputar alguns eventos na Europa, como forma de preparação para este mundial, que será em dezembro, em Vilamoura, Portugal.”, compartilhou o atleta. 

Embora o kitesurf ainda seja um esporte majoritariamente masculino, a presença feminina começa a ganhar espaço na região. O número de mulheres praticantes ainda é pequeno, especialmente na modalidade Fórmula Kite, onde, inclusive, há risco de algumas competições nacionais não contarem com disputas femininas por falta de inscritas. No entanto, há sinais de mudança, pois cada vez mais meninas e mulheres têm se interessado pela prática, influenciadas pelas redes sociais e pela valorização de atividades ao ar livre.

Na região, esse movimento conta com figuras importantes que inspiram e lideram essa transformação. A própria presidenta da AKNF, Isabelle, é uma velejadora apaixonada e atua ativamente para ampliar a participação feminina no esporte. “Ainda é uma participação baixa, especialmente na modalidade Fórmula Kite. Mas estamos trabalhando para mudar isso, com mais incentivo e visibilidade”, destacou.

A velejadora Isabelle Rabello, atual presidente da Associação de Kitesurf do Norte Fluminense (AKNF)

O crescimento do kitesurf no Norte Fluminense também tem impactado a economia local e locais como escolas de Kite, pousadas, restaurantes e serviços de turismo já percebem o aumento na movimentação durante a alta temporada dos ventos. “O esporte agrega valor ao turismo, à gastronomia e à prestação de serviços. Ainda temos muito a crescer”, reforçou a atleta. 

Para garantir que o Kite se expanda de forma sustentável, a AKNF aposta em projetos sociais, como o Projeto Catavento. A iniciativa atende 30 crianças de São João da Barra com aulas práticas gratuitas de Kitesurf, além de acompanhamento social. “O kitesurf é um esporte caro, então o projeto é uma verdadeira ferramenta de inclusão”, explicou Isabelle. Em 2025, o projeto chega à sua segunda edição, fortalecendo a base de novos atletas e formando cidadãos conscientes.

O jovem Vittinho começou a praticar o esporte aos 8 anos e hoje, aos 16, já é tricampeão brasileiro de Kitesurf Hydrofoil