
O que começou como um simples passatempo se transformou em um fenômeno digital. Com traços delicados e cenários que parecem saídos de um filme infantil, os livros de colorir da artista norte-americana Abbie “Bobbie” Goveia viralizaram nas redes sociais e conquistaram adultos e crianças ao redor do mundo. No TikTok, vídeos com pinturas dos caderninhos acumulam milhões de visualizações e seguem uma estética própria com canetas de diversas cores, iluminação suave, mãos cuidadosas preenchendo cada espaço com todo cuidado. Mas por trás das imagens aparentemente leves, uma dúvida surge e levanta um alerta: até onde vai o prazer e onde começa a cobrança por perfeição?
Colorir, uma prática que deveria estar associada ao bem-estar e ao tempo livre, tem sido atravessada pela lógica da alta performance. Na era dos likes, até o lazer virou palco de comparação. “Eu me sinto um pouco frustrada quando não consigo colorir igual vejo na internet”, admitiu Maria Luísa Rocha, de 20 anos, que conheceu o Bobbie Goods por influência da tia. “Mas tento não me prender muito e uso a criatividade quando as referências não saem como planejado”, completou. A jovem costuma pintar antes de dormir como uma forma de relaxar. “É uma terapia. Fico na expectativa de chegar a hora de fazer”, disse.
Essa experiência revela um paradoxo: o que é feito para aliviar a mente pode, quando submetido a certos padrões, gerar o efeito contrário.
Para a psicóloga Laís Barreto, os hobbies são hoje quase um ato de resistência. “Vivemos hiperconectados, com a atenção fragmentada por notificações, cobranças e informações. Um hobby cria um espaço de respiro na rotina, um lugar onde não há exigência de produtividade, apenas presença”, afirmou. Segundo ela, atividades manuais como pintar, bordar ou modelar convidam à atenção plena, conhecida como mindfulness, e ajudam a reduzir o estresse e a ansiedade. “Mais do que um passatempo, essas práticas se tornam uma forma de se escutar, de se expressar sem julgamentos. Cultivar esse tipo de presença é um ato de saúde mental.”
A popularidade do Bobbie Goods tem tudo a ver com esse movimento. Em tempos de cansaço crônico, como aponta o filósofo e sociólogo sul-coreano Byung-Chul Han na obra A Sociedade do Cansaço, há uma busca crescente por formas de desacelerar. Mas mesmo esse desejo pode ser corrompido pela lógica produtivista. “Quando tudo vira uma meta ou uma comparação, nosso cérebro interpreta aquilo como mais uma obrigação e não como uma fonte de prazer. Isso compromete nossa capacidade de relaxar, brincar e simplesmente ser”, explica Laís.

A prática da pintura também temsido uma alternativa para a redução do tempo de tela, principalmente entre crianças. Betina Sarmet, de apenas 8 anos, conheceu o Bobbie Goods por meio de um amigo, que a presenteou com um livro, e da madrinha, que a presenteou com canetinhas. “Costumo pintar sozinha. Me sinto relaxada e feliz”, contou a menina.
A mãe, Gisela Sarmet, confirma que a atividade ajudou a diminuir o tempo da filha em frente ao tablet e à TV. “Ela passa bastante tempo pintando Bobbie Goods ou desenhando. Isso estimula demais a atenção dela, a criatividade e o foco. Acredito que reduz muito a ansiedade. Colorir, além de ser uma terapia ocupacional, traz autoridade para a criança, que decide onde vai colocar cada cor, luz e sombra. É uma maneira muito boa de autoconhecimento.”
As redes sociais, porém, embaralham as fronteiras entre relaxamento e obrigação. Pintar deixou de ser apenas um gesto espontâneo e se tornou mais uma oportunidade de validação externa. Atividades que deveriam ser livres acabam se tornando vitrines, onde a espontaneidade se perde quando o foco deixa de ser o prazer e passa a ser o resultado estético. Quando isso acontece, o que antes era autocuidado vira ansiedade.
Essa tensão afeta principalmente quem já vive sob o peso de expectativas altas, seja no trabalho, nos estudos ou na própria aparência. A cultura da produtividade condiciona as pessoas a acreditarem que só têm valor quando estão fazendo algo útil. Isso distorce a percepção do tempo livre, que passa a ser vivido com culpa. O “ócio criativo”, espaço de repouso fértil onde ideias surgem naturalmente, é frequentemente sufocado por essa necessidade de ser útil o tempo todo.



COMO SABER QUANDO ALGO DEIXOU DE SER SAUDÁVEL?
De acordo com a psicóloga, um hobby deixa de ser saudável quando o prazer dá lugar à cobrança. “Quando a atividade começa a gerar ansiedade, perfeccionismo ou sensação de inadequação, é hora de observar”.
Esses sentimentos, muitas vezes silenciosos, também se manifestam no corpo e tensão muscular, irritação durante a prática ou esgotamento depois dela são sintomas comuns. Um hobby, por natureza, precisa ser leve, espontâneo e sem objetivo externo.
Algumas estratégias podem ajudar a resgatar o prazer genuíno no lazer. Um bom começo é se perguntar por que aquela atividade foi iniciada e o que nela proporcionava bem-estar. Em seguida, vale trocar o foco no resultado pela valorização do processo, permitindo-se errar, experimentar sem regras e criar com liberdade.
Práticas como desligar o celular durante o momento de lazer, evitar postar ou se comparar e simplesmente viver aquele instante como um espaço íntimo de expressão também fazem diferença. Pintar com a mão não dominante ou usar materiais diferentes pode ajudar a romper com o perfeccionismo e lembrar que brincar também é uma forma de existir.
Maria Luísa já realiza esse exercício e se permite experimentar. “Pintar me ajuda a organizar os pensamentos. Enquanto a gente tá pintando, a cabeça tá pensando, e quando fica pronto, dá uma sensação boa, principalmente quando fica da forma que eu imaginei.”




