Campista, atriz, cantora, uma das referências da dramaturgia brasileira, símbolo de luta e representatividade. São muitos os adjetivos que podem ser usados para descrever Zezé Motta, que aos 81 anos de idade continua fazendo “mil coisas ao mesmo tempo” como ela mesma relata. Em turnê com o espetáculo “Vou Fazer de Mim um Mundo” – a peça já passou por Brasília e Belo Horizonte, estreia em agosto no Rio de Janeiro e em seguida, segue para São Paulo – que é uma adaptação baseada no bestseller “Eu sei porque o pássaro canta na gaiola”, de Maya Angelou, a atriz conta que acabou de gravar dois novos filmes. Ela é protagonista de “Somos Tereza”, que relata a história de Tereza Benguela, mulher que liderou por cerca de 20 anos um quilombo no Mato Grosso e também de “Mãe Bonifácia”, figura histórica para o povo negro. Já na televisão, Zezé pode ser vista na 3ª temporada de “Arcanjo Renegado”, no Globoplay e apresenta a 5º Edição do “Especial Mulher Negra”, na Universal+ e no Canal E!. Entre um trabalho e outro, Zezé Motta, que é a grande homenageada do 1º Festival Goitacá de Cinema, na cidade de Campos dos Goytacazes, tirou um tempo para conversar com a Revista Fever sobre carreira, maturidade e ativismo.
Fever – A gente sabe que você saiu de Campos muito cedo, aos 2 anos de idade. Como foi a sua relação com a cidade ao longo da vida. Ainda há algum vínculo?
Zezé – Eu era muito criança, não tenho essa recordação, mas depois de adulta e que fiquei conhecida passei a ir muito em Campos. Fiz shows memoráveis na cidade, eventos, homenagens, como diz a música que a Bethânia e a Rosinha de Valença fizeram para mim, eu fui feita nos canaviais, na Usina Barcelos. Mesmo vindo muito cedo para o Rio, Campos é minha história, foi aí que eu nasci.
Fever – Seu pai escrevia músicas e cantava. Foi uma inspiração para você seguir no mundo das artes?
Zezé – A ideia de ser cantora veio do meu pai, com toda certeza. Ele trabalhava como motorista durante o dia, para ganhar dinheiro, mas era músico erudito. Também dava aulas de violão e tocava música popular na noite para sobreviver. Sou do tempo do rádio. Minha mãe e eu passávamos o dia inteiro costurando e ouvindo a programação. Quando meu pai chegava em casa, eu falava: “Olha que música linda que a Dalva de Oliveira gravou”, e cantava para ele. Um dia, quando eu tinha uns 16 anos, a Ellen de Lima gravou uma muito difícil. Assim que terminei de cantar, meu pai perguntou: “Quantas vezes você ouviu essa música?”. Ela tinha acabado de lançar o LP, tinha escutado umas três
vezes. Então, ele disse: “Você aprendeu a melodia, decorou a letra, que é enorme, e não desafinou. Tem que ser cantora”. Era engraçado porque minha mãe torcia para que eu seguisse a profissão dela e, meu pai, a dele. Fiquei muito dividida, até porque ela era uma modista bem-sucedida e sempre me dizia que meu pai não tinha conseguido fazer carreira nem como músico erudito, nem como músico popular.

Fever – O que da sua infância ainda tem na Zezé de hoje?
Zezé – Acho que a generosidade e o meu lado canceriana. Sempre fui amiga de todo mundo, era tida no colégio in- terno como a boazinha, amiga, fiel, que salvava todo mundo. Eu continuo essa mesma pessoa.
Fever -Você estreou no teatro com “Roda Viva”, de Chico Buarque, ainda durante o período da ditadura militar no nosso país. Como era fazer teatro nessa época?
Zezé – A peça, dirigida pelo Zé Celso, fazia uma crítica forte à ditadura. A maioria adorava, mas o pessoal de direita reclamava, dizia que o espetáculo era pornográfico, contra a moral e os bons costumes. A censura não largava do nosso pé. Dois anos depois da estreia, em 1968, durante uma das apresentações, o teatro Ruth Escobar, em São Paulo, foi invadido por estudantes que faziam parte do CCC (Comando de Caça aos Comunistas). A peça tinha acabado fazia alguns minutos, o público ainda saía, eu conversava com alguém, quando vi uns caras fortões com cassetetes nas mãos. Fui agredida, mas teve gente que levou a pior. É triste pensar nesse episódio e olhar para o presente.
Fever – No mesmo ano ocorreu sua estreia na televisão, em “Beto Rockfeller”. Fazer novelas mudou sua vida?
Zezé – Em 1968 fui foi convidada por Bráulio Pedroso a integrar o elenco. A novela, escrita pelo autor, foi exibida na TV Tupi e é considerada um marco da teledramaturgia brasileira pelas inovações propostas. A minha personagem, Zezé, tinha o meu nome de atriz, era empregada doméstica e, na trama, namorava o mordomo de Maitê, papel de Maria Della Costa. Quando a dona da casa saía, ela vestia as roupas e as perucas louras dela. Em seguida, fui contratada pela Globo para atuar nas novelas ‘A Patota’ (1972), de Maria Clara Machado, e ‘Supermanoela’ (1974), de Walther Negrão.
Fever – Sua trajetória é marcada pela participação em mais de 70 filmes, entre eles, “Xica da Silva”, dirigido por Cacá Diegues, em 1976. Esse foi mesmo um marco da sua carreira?
Zezé – Virei símbolo sexual. Quando as pessoas começaram a me chamar de Xica na rua, fiquei bem incomodada. Já tinha uns oito anos de carreira no teatro, tinha feito um filme, novelas… Queria que meu nome artístico, dado pela Marília Pêra [antes, ela usava seu nome de batismo, Maria José Motta], emplacasse, mas as pessoas só me chamavam pelo nome da personagem. Mais tarde, percebi que a Xica era minha madrinha, que não tinha que reclamar da vida. Estava tudo certo. Ela foi um divisor de águas na minha carreira. O Cacá foi uma coisa mágica na minha vida. Sabia que ele estava fazendo teste, mas não tive coragem de me oferecer. E ele não estava encontrando a atriz para fazer a Xica. Se não encontrasse, como disse em sua biografia, ele não faria o filme. Um dia, Nelson Motta lembrou ao Cacá: “E aquela atriz de Godspell?” [musical que ela encenou em 1974]. Fiz o teste com uma cena bem delicada, quando a Xica é proibida de entrar na igreja. Naquela época, até a quarta geração, quem tivesse negro no sangue não podia entrar na igreja dos brancos. Tinha dificuldade para controlar minha agressividade. Tenho meu lado Oxum, que é doce, mas Iansã é aquela que vira a mesa. Oxum prevalece, sou muito conciliadora. Mas Iansã, de seis em seis meses, vira a mesa. E o Cacá percebeu isso… Ganhei diversos prêmios por meu papel como Xica da Silva, incluindo o reconhecimento como melhor atriz em vários festivais de cinema em 1976. O filme me projetou nacional e internacionalmente. Viajamos por mais de 16 países, levamos mais de 3 milhões de brasileiros as salas de cinema na época. Não tinha internet e essa divulgação de hoje, pensa em 3 milhões de pessoas indo ao cinema em 1976?
Fever – Xica da Silva te projetou como ícone de beleza também. O quanto isso te fortaleceu enquanto mulher preta?
Zezé – Resolveu minha autoestima, porque diziam que nós éramos feios, aí do dia pra noite me vi um símbolo sexual.
Fever – Você é uma artista completa e tem também uma carreira consagrada na música, com 11 discos. Ano passado, aos 80 anos, saiu com a turnê “Coração Vagabundo – Zezé canta Caetano”, que passou aqui pela cidade de Campos. Como foi esse último encontro com o público da sua cidade natal?
Zezé – É sempre gostoso cantar em Campos, sou recebida com muito carinho, respeito…



Fever – Você fez parte do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial e a sua visibilidade sempre deu luz ao tema. Você acha que o Brasil avançou desde o início da sua luta?
Zezé – Eu fico muito feliz com todo o avanço que está acontecendo. Eu sempre digo que mesmo que eu não fosse negra, faria parte do movimento. Ano passado foi um ano muito especial para mim não só porque eu acabei de completar 80 anos, mas também porque um fruto prático desse meu envolvimento visceral com justiça está completando 40 anos. Estou falando da criação do Cidan (Centro de Informação e Documentação do Artista Negro), em 1984. Eu estava preocupada com a invisibilidade do ator negro quando entrei pra mídia e lá no final dos anos 70 fui uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado no Brasil contra a discriminação. Eu pedia foto e currículo a todo ator negro que encontrava ou que eu tinha o telefone. Na época, com patrocínio, conseguimos editar um catálogo completo e criar um banco de dados com 150 atores – incluindo Grande
Otelo. O produtor de elenco interessado vinha até minha casa para ver. Já conseguimos, por exemplo, ter um curso de teatro nas comunidades carentes, patrocinado pela dona Ruth Cardoso, de quem me aproximei quando fui conselheira de direitos humanos, durante o primeiro governo do Fernando Henrique [1995-1998]. Na época, uma amiga promovia um curso de cabeleireira para comunidades carentes e fui madrinha da primeira turma. Percebi a transformação que iniciativas como essa geram no modo de vestir e de falar. Nós temos a autoestima no subsolo. Estamos avançando, mas ainda temos muita luta pela frente.
Fever – Como você enxerga o papel da arte na luta antirracista?
Zezé – A arte desempenha um papel crucial na luta antirracista, funcionando como uma ferramenta poderosa de expressão, conscientização e transformação social. Ela permite que artistas compartilhem suas experiências, desafiem narrativas dominantes e promovam a empatia e a compreensão da diversidade.
Fever -Você é uma mulher de 81 anos que está em turnê, gravando filme, com uma rotina intensa de trabalho. Como você se prepara para essa maratona?
Zezé – Eu não penso muito, acordo vejo o que tenho pra fazer, vejo a agenda e vamos embora. Se for parar pra olhar
as viagens, todos os compromissos, a gente amarela. A vida do artista é isso, na estrada. Claro que tenho uma equipe hoje muito competente, que me auxilia,
organiza, produz, e aí isso facilita muito a nossa vida. Tento dormir, comer bem, pra poder dar conta.
Fever – Você é a grande homenageada da 1ª Edição do Festival Internacional Goitacá de Cinema, que será realizado aqui em Campos. Como foi receber essa notícia?
Zezé – Esse tipo de homenagem é sempre bem-vinda, isso serve pra poder reforçar a nossa luta, reforça pra que nós artistas continuemos na estrada. Isso também reforça que valeu a pena toda o nosso esforço.
Fever – 60 anos de carreira. Você é uma mulher que tem uma trajetória artística e humana de muita contribuição
para a nossa sociedade. Você se sente contemplada, se sente valorizada? Acha que teve sua grandeza reconhecida pelo Brasil e pelos brasileiros.
Zezé – Graças a Deus sim, me sinto em estado de graça com as homenagens, o respeito, o carinho, e o reconhecimento. E penso, novamente, valeu a pena.

Fever – Há algo que você ainda deseja realizar, pessoal ou profissionalmente?
Zezé – Eu faço tantas coisas e tantas coisas ao mesmo tempo que sempre que me fazem essa pergunta eu fico sem saber muito bem o que responder. Eu acredito que conquistei tudo que eu gostaria como artista, sabe? Penso num futuro fazer assinar algumas direções, de
shows, eu já dirigi algumas vezes e gosto disso. Já tive oportunidade de dirigir Leci Brandao, Jamelão, a Ana Carolina, bem no comecinho da carreira dela… Talvez mais pra frente, quem sabe?
Fever – Você teve cinco casamentos, um sinal de que acredita no amor, mas já disse em entrevista que não casaria de novo. Por quê?
Zezé – Depois de 5, pra que mais? A nossa cama só pra gente, a liberdade, o espaço, isso é muito bom, namorar eu quero e gosto, casar acho que não precisa mais.
Fever – O que é envelhecer para você? A idade e os aprendizados trazem uma leveza pra vida?
Zezé – Envelhecer tá dentro da cabeça de cada um. Tem muita gente com 70, 80, 90 que não envelheceu, e tem gente com 40, 50, que já é velho. Com certeza a idade traz leveza pra vida, outro dia mesmo no meu Instagram apontei umas coisas bem legais sobre a idade, coisas que depois dos 70 eu aprendi, o que eu comecei depois dos 60, e coisas que eu parei depois que fiz 50.





