O Teatro Trianon, atualmente localizado na Rua Marechal Floriano, é hoje um dos principais espaços culturais da região, mas sua história começa muito antes da inauguração que conhecemos. O antigo Cine Teatro Trianon foi idealizado por Francisco de Paula Carneiro, o Capitão Carneirinho (1866-1944), que em 1919 adquiriu o pequeno teatro Moulin Rouge e outros imóveis nas proximidades, tanto na rua Treze de Maio como na rua do Conselho (atual João Pessoa), para criar um espaço de entretenimento que pudesse rivalizar com o estilo em moda na capital da república e também nas grandes cidades europeias, principalmente a francesa.
O resultado foi um luxuoso teatro de arquitetura eclética, inaugurado em 25 de maio de 1921, com capacidade para 1.800 espectadores distribuídos entre 156 frisas, 554 cadeiras na plateia, 290 balcões, 38 camarotes e 610 galerias, além de 25 camarins, dois deles de luxo, destinados a grandes artistas. A realização do projeto ficou a cargo da empresa MeandaCurty & C, que seguiu os croquis elaborados pelo Capitão Carneirinho.
“Estamos falando de um homem visionário, que, em 25 de maio de 1921, entrega ao município, um luxuoso teatro, com uma estrutura praticamente impossível de ser vista, naquele período, em uma cidade do interior. O espetáculo de estreia aconteceu no dia 29, com a apresentação de ‘A Duqueza de Bal-Tabarin’, da Companhia Esperanza Iris”, explicou Antônio Filho, coordenador do Teatro Trianon.

Apesar de sua grandiosidade, o antigo teatro não resistiu às mudanças urbanas e econômicas, e em 27 de junho de 1975, foi demolido para dar lugar a uma agência bancária. Porém, a memória do Trianon e o desejo de manter um espaço cultural de referência permaneciam vivos na comunidade campista, especialmente entre os agentes culturais da década de 1980.
Durante a década de 90, houve algumas propostas anteriores antes da construção do atual teatro, a primeira do arquiteto Oscar Niemeyer, que não prosperou, depois uma nova proposta do arquiteto Cláudio Valadares, que também não se concretizou e posteriormente a penúltima, do arquiteto José Lauro Saraiva, que infelizmente faleceu precocemente antes de concluir o seu trabalho.
O novo Trianon só se tornou realidade através dos traços do talentoso arquiteto José Luis Puglia, responsável pela arquitetura da nova construção. A inauguração ocorreu no dia 31 de julho de 1998, com apresentação da Companhia de Dança de Debora Colker.
“Quando fui chamado para o projeto, não havia nenhuma intenção de copiar o antigo Trianon. Queríamos criar algo moderno, atemporal, que resistisse ao tempo sem se tornar obsoleto rapidamente”, pontuou.
A rua Marechal Floriano foi escolhida por existir toda aquela área disponível, espaço suficiente para construção de um grande teatro, e por estar próxima a área central da cidade, com vários equipamentos urbanos já instalados. Puglia explica que a inspiração veio do Metropolitan Opera House, em Nova York, com linhas limpas, estéticas despojadas e foco na funcionalidade. “A arquitetura do Trianon precisava ser atual, sem frufrus desnecessários, para que o público pudesse se sentir confortável e o espaço permanecesse belo por décadas”, afirmou.
O projeto arquitetônico trouxe desafios técnicos significativos, como a criação de acústica adequada para um teatro de grande porte. Para isso, Puglia contou com a colaboração de especialistas em acústica, iluminação cênica e cortinas teatrais, incluindo o experiente Fernando Pamplona, que orientou cada decisão crítica. “Sem ele, eu estaria até hoje tentando descobrir como fazer”, comentou o arquiteto.

Além da inovação técnica, o Trianon trouxe impactos significativos à paisagem urbana de Campos, tornando-se um ponto de identificação da cidade, da população em geral, e um marco de referência cultural. O teatro passou por adaptações ao longo de 25 anos, como a construção de rampas de acessibilidade, ajustes no número de assentos para atender à legislação de segurança contra incêndios e melhorias no fosso da orquestra e na caixa acústica do palco. Essas mudanças não afetaram a utilização do teatro, só trouxeram mais segurança e conforto para o público e funcionários. Atualmente, conta com cerca de 800 lugares, menos que os 920 originais, devido às exigências de segurança e acessibilidade.
Curiosidades do Trianon não faltam. Nos dois andares do foyer há mandalas e detalhes estéticos pensados por Puglia. “Quando alguém sobe e olha para o chão, percebe um elemento visual interessante, uma mandala para compor a beleza do espaço. E quem olha de baixo para cima, vê o ‘Titanic’, o mezanino que passou a ser chamado dessa forma por seu formato pontudo, onde as pessoas costumam parar para olhar o ambiente”, explicou. O arquiteto também ressalta a escolha do piso de alta durabilidade importado da Itália, garantindo que mesmo após 27 anos ele permanecesse intacto.
“Uma interessante curiosidade nos revela o único ‘elo’ entre o antigo e o novo Trianon: as estátuas da Tragédia e Comédia – nomeadas pelos campistas como Telma e Talma – que ficavam na porta do cine teatro e, no atual, ganharam réplicas que as representam, instaladas no foyer”, compartilhou Antônio.
Hoje, o Trianon se mantém como palco para apresentações nacionais e internacionais, além de atividades culturais diversas. Para José Luis, a realização desse projeto é a materialização de um sonho: “A arquitetura é um reflexo da época, mas também precisa resistir ao tempo. Criar um espaço útil, belo e duradouro foi meu maior desafio, e ver o Trianon funcionando 27 anos depois é a melhor recompensa”, finalizou José Luis.




