Play nos 60+

Nossos personagens de capa provando que a coisa mais moderna que existe é envelhecer.

Com mais saúde, renda e disposição para consumir e viver novas experiências, os brasileiros com mais de 60 anos estão deixando de lado o estereótipo da velhice “passiva” e ganhando protagonismo em diversas áreas. Conhecida como Geração Prateada, essa parcela da população já movimenta R$ 1,8 trilhão por ano no Brasil, segundo estudo da empresa de tecnologia Agetech, e, segundo dados do IBGE, devem representar quase 40% dos habitantes do país até 2070. Com isso, setores como turismo, saúde e bem-estar correm para se adaptar às demandas de um público cada vez mais ativo, exigente e conectado.

É o caso de José Eduardo Ferreira Caetano, poeta de 73 anos, que encontrou na maturidade uma fase de grande produção criativa. “Hoje eu escrevo mais e com mais qualidade do que há 10 anos. O tempo depura aquilo que a gente quer fazer. Agora eu quero escrever, por enquanto”, contou. Caetano é um exemplo de vitalidade por praticar jiu-jitsu há 61 anos, surfar, remar, nadar e manter uma rotina de escrita que considera muito mais produtiva do que quando era jovem.

Sua trajetória é marcada pela inquietação e pela transgressão positiva, valores que ele acredita que sua geração trouxe dos movimentos culturais dos anos 60 e 70. “Eu fui moderno para a minha geração e hoje sou pós-moderno. Nunca aceitei muito bem os limites impostos. A maturidade me trouxe uma liberdade que a juventude às vezes não permite. Eu mudo de pele como uma serpente e continuo sendo a mesma pessoa que era com 30 anos.” Além da poesia, ele vê na viagem uma forma de expansão da consciência. Em seus passeios, visitou o Azerbaijão, país que o marcou pela diversidade natural e pela percepção de como a vida é pequena diante da grandiosidade do mundo. “Ficar ali olhando aquele fogo que sai da terra há milhões de anos me fez ver como somos medíocres às vezes. E como é simples fazer coisas grandes, basta ter vontade.”

Eduardo Caetano mantém aos 73 anos, consegue unir maturidade e rebeldia.

Outro exemplo é a Heloísa Ribeiro de Souza, que aos 80 anos transborda energia e determinação. A ex-cabeleireira e ex-educadora acumula histórias que atravessam décadas de dedicação ao trabalho e à realização pessoal. Mesmo aposentada, Heloísa não se vê limitada pela idade, pelo contrário, sua rotina e seu pensamento seguem marcados pela autonomia e pela curiosidade.

“Eu nunca me preocupei muito com a minha idade. O meu lema sempre foi: eu quero, eu posso, eu consigo.”, afirmou. Para ela, o envelhecimento não significa abdicar de experiências, sonhos ou planos.

Heloísa pratica yoga, na qual realizou a famosa postura invertida aos 79 anos, também já se aventurou em escaladas, stand-up paddle e fez viagens marcantes. Uma das mais especiais foi ao Pantanal, onde acordou às 4h30 da manhã para ver o nascer do sol e, sem medo, experimentou até estrogonofe de jacaré. “Você parece que está no paraíso! Foi uma viagem maravilhosa que fiz com minha prima. Eu tinha 70 anos na época.”

Depois de anos atuando como cabeleireira, ela passou por um rigoroso processo seletivo e se tornou gerente da empresa pedagógica do Senac em Copacabana. “Entre dez profissionais, tirei o primeiro lugar. Foi uma correria, mas valeu a pena”, contou com orgulho. Depois de um tempo, ela pediu transferência para ser educadora em curso de cabeleireira em Campos, onde trabalhou por mais 10 anos e se aposentou. Mesmo sem ter concluído o segundo grau, ela segue alimentando projetos futuros. “Já venho com essa ideia de realizar o segundo grau e espero conseguir.”

A história de Heloísa ajuda a romper mitos comuns sobre o envelhecimento. “Envelhecer bem é ter saúde e saber lidar com os problemas. Eles surgem, mas temos que saber enfrentar”, pontuou.

Heloísa Ribeiro, de 80 anos, acredita que envelhecer não significa abrir mão dos sonhos.

A médica geriatra Deborah Casarsa destaca que o envelhecimento precisa ser compreendido como um processo natural, que exige cuidados específicos e acompanhamento profissional. “A partir dos 60 anos, precisamos de atenção redobrada com alimentação, prática de atividades físicas e saúde mental. Mas há um ponto que muita gente esquece: o isolamento social. Ele é um dos maiores vilões da longevidade com qualidade”, alertou. Para a médica, o segredo está no equilíbrio entre corpo ativo, mente estimulada e conexões sociais verdadeiras.

Ela aponta que, com o aumento da expectativa de vida, condições como demência, depressão, osteoporose e artrose têm se tornado mais frequentes. Por isso, é fundamental que o idoso esteja amparado por uma equipe multidisciplinar. “Nossa função é acompanhar o processo de envelhecimento de forma ampla. Trabalhamos para manter a autonomia e a funcionalidade. Ou seja, para que a pessoa continue escolhendo e realizando o que deseja.”

A alimentação desempenha papel central nesse processo, como aponta a médica Cinthia Gomes. De acordo com ela, as necessidades nutricionais mudam com o passar dos anos, e os excessos ou restrições sem acompanhamento médico podem trazer riscos. “A alimentação deve ser individualizada, considerando histórico clínico, nível de atividade, metabolismo. Manter a massa magra, por exemplo, é essencial para evitar quedas e preservar a força muscular. Mas isso não se faz apenas com proteína. É preciso equilíbrio e orientação.” Cinthia também destaca que muitos idosos começam a se interessar mais pela nutrição após os 60, buscando mais energia, disposição e bem-estar.

Mas a vida não se resume a só cuidar da saúde. Para muitos idosos, a terceira idade representa um novo começo, e a realização de sonhos antigos. Viajar, por exemplo, se torna uma das atividades favoritas de quem finalmente tem mais tempo livre. A empresária Kamila Passos, dona da agência Katour, percebeu essa tendência de perto. “Nos últimos anos, o número de clientes com mais de 60 anos só cresce. Eles são curiosos, organizados e, na maioria das vezes, mais decididos do que os jovens. Sabem o que querem, pesquisam bastante e valorizam experiências.”

Segundo Kamila, o turismo na melhor idade não é sinônimo de passividade. Embora valorizem o conforto, os viajantes com mais de 60 anos também demonstram grande interesse por aventura, cultura, gastronomia e contato com a natureza. Muitos optam por viajar em grupos, criando laços de amizade e compartilhando vivências. Para a empresária, o mais marcante é observar o modo como essas pessoas se entregam às experiências de viagem, sem pressa, vivendo intensamente cada segundo.

Grupo de viagem da agência Katour em passeio pela Turquia.

Entre tantas histórias de vitalidade e autonomia, a arquiteta Martha Mignot também se destaca como símbolo de vitalidade que acompanha o envelhecimento bem cuidado. Aos 68 anos, ela mantém uma rotina ativa trabalhando em seu escritório, cuidando da casa, acompanhando de perto a rotina da mãe e dos netos, frequenta cursos de atualização, participa de um grupo de oração, organiza viagens e ainda reserva tempo para encontros com amigos. “Gosto muito de aprender algo novo! Faço cursos regularmente e tenho paixão por viajar. Recentemente estive no Chile e na Itália”, contou. Aposentar? Nem pensar! “Não me vejo parando tão cedo. Meu trabalho me estimula, me mantém ativa e conectada.”, afirmou.

Para ela, envelhecer bem é ter liberdade para tomar decisões, autonomia para executá-las e saúde para manter uma rotina produtiva e prazerosa. Ainda assim, Martha reconhece os desafios que a cidade impõe. “Temos poucas opções de lazer pensadas para nós. Calçadas mal cuidadas, escadas em excesso, ausência de bancos em praças. As cidades ainda não estão preparadas para o envelhecimento da população. Isso impacta diretamente nossa qualidade de vida.”

Ela também derruba um dos maiores mitos sobre o envelhecimento, a ideia de que a velhice é sinônimo de inatividade. “Isso depende da forma como a pessoa encara a vida e se cuida”, pontuou.

A arquiteta Martha Mignot em viagem recente ao Uruguai.

Esses relatos mostram que a Geração Prateada não quer ser apenas lembrada, quer ser respeitada, ouvida e incluída, e tem bons motivos para isso. A longevidade é uma conquista, fruto de avanços na medicina, na nutrição e no estilo de vida, mas também é um desafio coletivo. É preciso que governos, empresas, cidades e famílias compreendam o valor dessa fase da vida e invistam em políticas e estruturas que garantam um envelhecimento digno.

Ainda existe um longo caminho a percorrer. O etarismo, preconceito contra pessoas mais velhas, é uma barreira que persiste, muitas vezes de forma sutil, mas muito nociva. “A sociedade ainda associa velhice à inutilidade, quando na verdade é uma fase de potência, de sabedoria e de liberdade”, pontuou a médica Deborah.