Os perigos do autodiagnóstico

Graças ao avanço da tecnologia e principalmente da difusão da internet, o acesso à informação nunca foi tão amplo, acessível e rápido. Porém, essa abundância de conteúdo também tem levado muitas pessoas a se autodiagnosticarem com base em publicações da internet, vídeos curtos ou postagens nas redes sociais, e agora, até com as IAs. A psicóloga Flávia Longo afirma que vivemos em um tempo em que as pessoas querem respostas rápidas para seus sofrimentos e, muitas vezes, buscam compreender suas dores sem mediação profissional. Porém, é essencial compreender que o autoconhecimento é importante, mas quando substitui o cuidado especializado, pode se tornar um problema.

“Quando conteúdos sobre saúde mental são reduzidos a listas genéricas de ‘10 sinais de ansiedade’ ou ‘5 sintomas de TDAH’, cria-se uma falsa ideia de diagnóstico. O algoritmo favorece o que gera engajamento, não necessariamente o que é mais técnico, preciso ou verídico. Por isso, é preciso consumir esse tipo de conteúdo com senso crítico, ou na verdade, nem consumi-los. A pessoa que está em sofrimento psíquico, perde esse senso crítico e fica suscetível à manipulações externas”, pontuou a psicóloga.

Para identificar um bom conteúdo sobre saúde mental nas redes é necessário analisar se ele traz um teor informativo sem alarmar, e se orienta sem rotular. Também é importante prestar atenção a quem está produzindo o material que deve ser um profissional qualificado, com formação na área da saúde mental e se ele estimula os ouvintes a buscar por ajuda especializada. Conteúdos sérios valorizam o processo terapêutico, explicam com responsabilidade e deixam claro que nenhum post substitui uma escuta individualizada.

Se identificar com um sintoma é natural, pois todos, em algum momento, podem sentir ansiedade, tristeza, cansaço ou dificuldade de concentração. Mas para que um comportamento seja considerado parte de um transtorno, ele precisa ser persistente, causar sofrimento ou prejuízo significativo na vida da pessoa. A diferença está no contexto, na intensidade e na duração e, é por isso que o diagnóstico só pode ser feito por um profissional, com escuta atenta e avaliação cuidadosa.

O maior risco é confundir sinais e sintomas que, embora pareçam familiares, podem ter causas muito diferentes entre si. Além disso, o autodiagnóstico pode gerar medo, angústia e até levar à automedicação ou tratamentos inadequados. Em alguns casos, a pessoa se identifica com um transtorno que não tem e deixa de investigar o que realmente está acontecendo. Em outros, minimiza sintomas sérios achando que “é só ansiedade”, quando há algo mais complexo por trás.

A psicologia tem como objetivo acolher, escutar e ajudar a reorganizar o que, muitas vezes, está confuso ou sobrecarregado. Quando alguém chega no consultório com um autodiagnóstico, o papel do psicólogo não é confrontar, mas abrir espaço para entender o que motivou essa busca e quais sintomas estão ali, como a pessoa os interpreta e o que ela sente. A partir disso, o profissional conduz um processo de avaliação e intervenção real, respeitando a vivência do paciente, mas oferecendo um olhar técnico e cuidadoso.

A psicóloga alerta que autoconhecimento não pode substituir o cuidado especializado