Muito além da TPM

O Transtorno Disfórico Pré-Menstrual (TDPM) afeta entre 2% e 8% das mulheres, segundo dados de 2024 do Instituto Baiano de Neurodesenvolvimento Suzana Lyra (IBN). Considerada uma forma mais grave e debilitante da Síndrome Pré-Menstrual (SPM), ela se manifesta por sintomas físicos e emocionais intensos, como a irritabilidade acentuada, raiva e conflitos interpessoais; tristeza profunda, desesperança ou crises de choro; ansiedade e tensão emocional marcantes; e a labilidade afetiva, ou seja, mudanças bruscas de humor.

De acordo com a psiquiatra Aguina Pimentel, as causas do transtorno são multifatoriais e estudos indicam que não se trata de um desequilíbrio hormonal em si, mas de uma hipersensibilidade do sistema nervoso central às flutuações hormonais normais do ciclo menstrual, principalmente do estrogênio e da progesterona.

“Fatores genéticos e neurobiológicos estão envolvidos, especialmente alterações na regulação da serotonina, neurotransmissor relacionado ao humor e bem-estar.

Situações que podem potencializar o quadro incluem histórico familiar de TDPM ou transtornos do humor; estresse crônico; distúrbios de sono; e transtornos depressivos ou ansiosos prévios”, explicou Aguina.

Após identificação dessa sensibilidade, o diagnóstico é feito clinicamente, com base na observação e registro sistemático dos sintomas por, no mínimo, dois ciclos menstruais consecutivos, conforme os critérios estabelecidos pelo DSM-5. A mulher deve apresentar pelo menos cinco sintomas, sendo um deles obrigatoriamente de natureza afetiva. Embora não existam exames laboratoriais específicos que confirmem o transtorno, eles podem ser solicitados para descartar outras condições médicas, como disfunções da tireoide ou distúrbios hormonais. A recomendação é buscar avaliação psicológica quando os sintomas passam a comprometer o humor e as atividades diárias, repetindo-se de forma previsível a cada ciclo. 

O tratamento é multidisciplinar, envolvendo abordagens farmacológicas e psicoterapêuticas como o uso de antidepressivos, por exemplo. Há ainda outras formas de cuidado como terapia cognitivo-comportamental (TCC); mudanças no estilo de vida, com atividade física regular, sono adequado, redução de cafeína, álcool e tabaco; e em casos selecionados, o uso de contraceptivos hormonais combinados pode ajudar a estabilizar as flutuações hormonais.

“O uso de medicamentos é indicado quando os sintomas são moderados a graves, causando prejuízo funcional ou sofrimento emocional significativo. Algumas mulheres se beneficiam de um tratamento intermitente, iniciado cerca de 10 a 14 dias antes da menstruação sendo interrompido após o início do fluxo menstrual, já outras necessitam de tratamento contínuo.”

Para Aguina, a conscientização a respeito do transtorno é importante e necessário.

“Muitas mulheres acreditam que se trata apenas de ‘TPM forte’, e profissionais de saúde, em alguns casos, não reconhecem a gravidade dos sintomas. O estigma associado às alterações hormonais femininas e à saúde mental contribui para a banalização do sofrimento. Campanhas públicas, inclusão do tema nos programas de saúde da mulher e estímulo ao autoconhecimento do ciclo menstrual podem favorecer o diagnóstico precoce e o tratamento adequado”, compartilhou.

@dra.aguinapimentel