Liderança que representa

Em um país onde mais da metade da população se identifica como negra (55,5%), mas apenas 8% dos cargos de liderança são ocupados por pessoas pretas, segundo pesquisa do Instituto Ethos, surge o projeto Elevador Social, como um movimento urgente e necessário para mudar esse cenário de desigualdade histórica. Idealizado por José Mário Crespo Soares, de 28 anos, empresário e concursado da Petrobras, o projeto nasceu em março de 2025, em meio a um curso de franchising que participou em São Paulo. Lá, entre mais de 40 empresários de diferentes estados, José Mário foi o único homem negro da sala. “A ideia surgiu a partir de um sentimento. O sentimento da falta de representatividade. Não foi uma ideia que virou sentimento, foi o sentimento que virou ideia”, afirmou.

Através do lema “cá que Elevando socialmente o negro a um lugar de equidade”, o projeto nasceu com a proposta de acelerar a inclusão, visibilidade e valorização de pessoas negras em posições de liderança e protagonismo social e corporativo. Hoje, de acordo com especialistas apoiadores do movimento, seriam necessários 150 anos para alcançar uma verdadeira equidade racial no ambiente de trabalho, e o objetivo é reduzir o tempo estimado.

Pessoas negras enfrentam diariamente barreiras visíveis e invisíveis como dúvidas sobre sua competência, isolamento, falta de representatividade, desafios para conquistar confiança, além de uma carga emocional que impacta diretamente no seu desempenho e bem-estar. Para enfrentar esses obstáculos, o projeto se baseia em estratégias concretas de:

José Mário propõe, com o projeto, um chamado à responsabilidade coletiva

VISIBILIDADE

Através de uma presença digital ativa, especialmente na plataforma Instagram, o projeto divulga histórias reais de pessoas negras que ocupam cargos de referência e liderança em suas áreas. A ideia é dar rosto, nome e voz aos talentos que muitas vezes passam despercebidos pelas estruturas sociais e corporativas.

INSPIRAÇÃO

Ao iluminar essas trajetórias, o Elevador Social busca motivar pessoas negras que estão em processo de ascensão no mercado de trabalho, para que eles possam olhar para outras que já ocupam espaços de liderança e saibam que é possível. Para que se inspirem e se enxerguem também nesses lugares de poder.

CAPACITAÇÃO

Ainda em fase de estruturação, o projeto pretende firmar parcerias com instituições públicas e privadas de ensino, oferecendo conteúdo formativo, encontros, lives e mentorias promovendo a troca de saberes, experiências e caminhos possíveis para chegar em cargos de destaque.

O advogado e apoiador do projeto Adilson Lucas de Souza sente que alguns obstáculos da vida foram potencializados pela sua cor da pele

O advogado e apoiador do projeto Adilson Lucas de Souza, de 26 anos, é doutorando do Programa de Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), sócio-proprietário do Souza & Gama Sociedade de Advogados e professor universitário, e compartilhou conosco sobre como foi sua trajetória até chegar na posição de destaque que ocupa. “Minha trajetória foi marcada por obstáculos que, sem dúvida, foram potencializados pela cor da minha pele. O grande desafio sempre foi romper com a barreira da não aceitação — esse lugar onde o outro te vê como alguém que não pertence, que só cabe na subalternidade. O Elevador Social surge exatamente para confrontar essa lógica: ele não apenas impulsiona trajetórias, mas reafirma que pessoas negras têm direito de estar nos espaços de liderança, com legitimidade, potência e voz”, pontuou.

Para a jornalista Cláudia Eleonora, exercer um cargo de liderança em uma grande emissora influenciou positivamente a comunidade negra

Cláudia Eleonora Alves, jornalista e publicitária com quase 30 anos de experiência, também é uma das apoiadoras do projeto. Ao longo da carreira, construiu uma trajetória de referência como mulher negra à frente do telejornalismo, onde chegou ao cargo de gerente de jornalismo em uma emissora da cidade de Campos dos Goytacazes. Atualmente, Cláudia atua como editora-chefe em uma revista com foco em empreendedorismo e negócios. “Exercer um cargo de liderança, em uma grande emissora, representou muito para mim. O fato de ser mulher negra à frente do telejornalismo regional alcançou uma repercussão muito positiva na comunidade negra e significou um reconhecimento do meu trabalho, competência e dedicação ao jornalismo”.

Embora o projeto tenha ganhado força inicialmente nas redes sociais, especialmente com depoimentos e entrevistas publicados no perfil do movimento no Instagram, o plano é ir além do ambiente digital. Um dos objetivos futuros é estabelecer conexões diretas entre pessoas negras capacitadas e vagas de liderança em empresas, sendo o elo entre o profissional e o cargo que ainda não é ocupado por falta de oportunidade. “O Elevador Social é mais do que um projeto: é um chamado à responsabilidade coletiva. Em um Brasil que ainda se organiza com base em estruturas racistas e excludentes, promover a equidade racial não é apenas uma causa social, é uma urgência econômica, humana e civilizatória. A mídia tem o poder e o dever de amplificar essas vozes, realçar esses movimentos e ajudar a acelerar a mudança que o país tanto precisa.”, explicou José Mário.

@elevadorsocial_

Apesar de ainda não contar com parceiros oficiais, o Elevador Social já funciona como uma associação em formação, reunindo apoiadores em torno da missão de mudar estatísticas com ações concretas.

O fundador do projeto José Mario Crespo Soares com alguns associados: Alerrandro Onofre, Jorge Paulo da Silva Júnior, Caio César Gomes dos Santos, Cláudia Eleonora Ribeiro Alves, Hyago Oliveira Andrades e Adilson Lucas de Souza Silva.