GERAÇÃO Z COLOCA A MPB NO REPEAT

Cada vez mais presentes nas playlists dos jovens, nomes consagrados da MPB como Rita Lee, Ney Matogrosso, Djavan, Marisa Monte e Gilberto Gil, convivem lado a lado com artistas contemporâneos como Liniker, Tim Bernardes, Rubel e Marina Sena. O movimento evidencia uma aproximação entre gerações e reafirma o caráter atemporal da música popular brasileira.

Dados da plataforma de streaming Spotify mostram que, entre 2022 e 2024, o consumo de MPB cresceu 47%, sendo que 64% desse aumento veio de ouvintes da Geração Z, com idades entre 18 e 24 anos. Atualmente, esse grupo representa 25,1% de toda a audiência de MPB na plataforma, destacando-se como o único segmento etário a registrar crescimento expressivo.

Embora muitas vezes esse interesse seja por influência familiar, o acesso às redes sociais tem desempenhado um papel decisivo nesse processo. Plataformas como Instagram, TikTok e X (antigo Twitter) têm impulsionado músicas antigas por meio de vídeos, entre conteúdos esportivos, políticos, séries e filmes, que viralizam e caem no gosto do público mais jovem.

Um exemplo emblemático foi o que aconteceu durante um reality show, em que uma participante cantou a música “Escrito nas estrelas”, de Tetê Espíndola. A participante viralizou na internet pela forma engraçada de cantar, os jovens fizeram memes e começaram a pesquisar sobre a canção, que retornou ao topo dos charts do Brasil, chegando a ocupar primeiro lugar entre as músicas mais tocadas do ano. 

Há também séries, filmes e livros atuais que citam ou utilizam músicas de décadas passadas para compor cenários ou narrativas como no filme “Homem com H”, que conta a história de Ney Matogrosso, lançado em 2025, que levou uma grande parcela de a acompanhar mais de perto o artista. Em entrevista a um veículo de comunicação, o cantor comentou, em tom de humor que, após o filme, “perdeu o sossego”. O filme levou mais de 600 mil espectadores aos cinemas e bateu 5 milhões de visualizações globais na Netflix somente nas duas primeiras semanas em cartaz no serviço de streaming. 

Outro fator que tem movimentado bastante essa escolha dos jovens é a mistura de gêneros musicais, como o funk com MPB, o rap com o MPB ou o rap com piseiro. Essa fusão permite que os mais jovens conheçam artistas já consolidados da música brasileira. Um exemplo é o rapper BK, que vem lançando uma série de músicas misturando artistas brasileiros de gêneros diferentes. Em “Cacos de Vidro”, o cantor utiliza um sample do clássico “Esperar pra ver”, de Evinha, que participa cantando os vocais principais. A cantora se manifestou emocionada e feliz com a homenagem.

A partir daí, a música “Esperar Pra Ver”, faixa do álbum Cartão Postal, lançado em 1971, foi resgatada por internautas em trends e cresceu também em consumo no streaming, atingindo no Spotify, um crescimento de 250% no consumo diário da canção.

Esse movimento se reflete nos relatos de jovens ouvintes como Estela Dias, de 12 anos, que escuta e tem interesse pela MPB desde pequena. Ela explica que teve influência dos pais e da família, pois eles sempre escutaram esse gênero musical e passaram isso adiante com filhos, netos, sobrinhos. 

“Eu acredito que esse gênero é muito importante para o nosso país porque ele fala muito sobre a história do Brasil, traz muitas reflexões sobre a vida. Também foi uma forma dos cantores da época expressarem toda a injustiça que eles viviam.”

Estela conta que seus cantores favoritos são Gilberto Gil, Rita Lee, Marisa Monte e Djavan. Entre as músicas que mais escuta no momento são, “Realce” (Gilberto Gil), “Era Óbvio” (Marisa Monte), e também “Flor de Lis” (Djavan). E a que ela mais gosta de escutar é “Me chamando de Paixão”, do Jorge Ben Jor.

Enzo Arenari, de 14 anos, compartilha do mesmo incentivo da família com os gêneros musicais desde muito pequeno. 

“O primeiro álbum (sem ser de criança) que ouvi na vida, foi o primeiro disco de O Grande Encontro (Alceu Valença, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Elba ramalho), e acabou que, quando fui ficando mais velho, continuei me interessando e pesquisando sobre MPB. Hoje, é um dos gêneros musicais que mais ouço, junto com o rock.”

Enzo explica que a curiosidade e o tempo que passa pesquisando sobre álbuns, histórias sobre música e artistas, fez com que ele conhecesse muito mais música do que conheceria se fosse só por influência da família.

Para ele, a MPB valoriza a cultura brasileira, e consequentemente, permite conhecer a história do país por meio de movimentos musicais como Tropicália e Clube da Esquina. 

“Estou ouvindo muito Caetano Veloso, Cartola e Belchior. Já entre discos, o Cinema Transcendental do Caetano Veloso me lembra momentos bons, já que é um CD que meus pais tinham no carro quando eu era pequeno, é um disco que me traz uma sensação boa.”

Entre as músicas que ele mais tem ouvido estão “Tudo Outra Vez”, de Belchior; “Um Índio”, de Caetano veloso; “Peito Vazio”, de Cartola; “Movimento dos Barcos”, de Jards Macalé; e “Caçador de Mim”, de Milton Nascimento.

Já Maria Eduarda Paes, de 21 anos, compartilha que começou a ter mais interesse pelo gênero musical nos últimos três anos. Ela afirma que sempre escutou Cazuza em casa, mas foi em 2022, quando assistiu um espetáculo de dança chamado “Exagerado”, apenas com músicas dele, que passou a ouvir o artista com mais frequência e descobrir outros. “Eu sou dançarina, então a minha história com a dança conta muito sobre quem eu sou e o que eu escuto.” Ela também afirma que a MPB é um marco na história do Brasil.

“Os grandes artistas usaram a música como forma de protesto e identidade, reunindo e renovando os ritmos brasileiros, principalmente depois do Tropicalismo, misturando a modernidade. As músicas eram sucesso em festivais e na TV, com o engajamento político e social. A arte conta sobre o Brasil de uma forma muito sincera, e constrói a linha do tempo de um país marcado por muita beleza e riqueza, mas muita injúria.”

Escutar o gênero, segundo Maria Eduarda, enriquece seu repertório de vida e conecta a história do país e sua arte. Entre os artistas favoritos da jovem dançarina estão Gal Costa, Rita Lee e Ney Matogrosso. E as músicas que ela não para de escutar são “Força Bruta”, de Os Garotin; “Flutua”, de Johnny Hooker; e “Cara Valente”, de Maria Rita.

Maria compartilha também que “O mundo é um moinho”, de Cartola, é uma de suas músicas favoritas, por fazê-la lembrar de um momento muito importante de sua vida. “Apesar de sofrida, a canção me lembra um momento especial relacionado à dança que me marcou muito, tanto que tenho tatuado um moinho de vento junto às minhas amigas, que dividiram esse momento comigo”, finaliza.