Entre bicicletas, montaria em cavalo e manobras de skate, a inclusão tem dominado o cenário campista cada vez mais,através de projetos locais que vão muito além da competição: são uma ferramenta de autonomia, autoestima, descoberta e, principalmente, é para todo mundo.
Em um contexto que barreiras sociais e físicas ainda afastam tanta gente da prática esportiva, iniciativas como Bike Anjo, Criar Movimente e Skate For Us provam que, com acolhimento, criatividade e propósito, qualquer pessoa pode experimentar o esporte que quiser. O resultado são trajetórias que surpreendem e revelam que o que realmente move essas experiências não são o desempenho, mas a transformação que acontece quando o esporte abraça de verdade.
QUANDO PEDALAR MUDA TUDO
Para muitos, andar de bicicleta é uma memória de infância. Para outros, é um sonho. Foi assim com Brendo Ferreira, de 32 anos, que encontrou coragem para pedalar depois de adulto, graças ao projeto Bike Anjo.
Ele já conhecia o projeto quando morava em Aracaju (SE), mas na época não teve oportunidade de participar por falta de tempo. Até descobrir que também existia o projeto em Campos.
“A primeira pedalada foi simplesmente inesquecível. Sempre sonhei em aprender a pedalar, e quando consegui, senti uma mistura de alegria, liberdade e realização. De certa forma, foi como finalmente fazer parte de algo maior. Há um certo tabu em ser adulto e não saber andar de bicicleta, e aprender me fez sentir incluso, parte da sociedade.”
Depois de aprender a pedalar, como forma de gratidão, ele se tornou voluntário no projeto para ajudar mais pessoas a realizar o mesmo sonho. “Presenciei muitas pessoas de diferentes idades realizando o mesmo sonho que um dia foi o meu. Ver a alegria no rosto delas foi algo que me tocou profundamente. Posso retribuir o que recebi e isso é uma das sensações mais gratificantes que já vivi.”
Quem explica o projeto é Luiz Felipe Trindade Silva, voluntário PcD com baixa visão e responsável pelo projeto Bike Anjos em Campos. Segundo ele, a rede existe há mais de 10 anos no Brasil e já se estendeu para outros países.
“É uma iniciativa que conecta ciclistas voluntários com pessoas que querem aprender a pedalar. Percebemos que havia uma necessidade de construir uma articulação da Bike Anjo em Campos, pois é uma cidade extremamente propícia à locomoção por bicicleta, com ruas planas e clima favorável.”
Além do Luiz e do Brendo, a iniciativa conta com outros dois voluntários ativos, Tamires Azevedo e Geraldão. “Ensinamos as pessoas a pedalar, retirar rodinhas e pedais das bicicletas para facilitar o aprendizado, ensinamos a trocar câmaras de ar furadas e compartilhamos noções de direção defensiva no trânsito para quem já sabe pedalar”, explicou Luiz.
Com aulas gratuitas no estacionamento da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), o índice de procura é muito alto por crianças, jovens, adultos e idosos, sejam pessoas típicas ou atípicas, interessadas em aprender a pedalar, mostrando o quanto a bicicleta pode ser transformadora para todos.


EQUOTERAPIA: UM CAMINHO DE DESCOBERTAS E CONQUISTAS
Montar em um cavalo transmite liberdade e movimento, onde cada passo reorganiza o corpo e desperta sensações únicas. Entre os métodos de montaria está a Equoterapia, terapia interdisciplinar que utiliza o cavalo como agente de reabilitação biopsicossocial para estimular o desenvolvimento físico, psicológico e emocional de pessoas com deficiência ou necessidades especiais.
A pequena Estela Maciel Menezes, de 4 anos, vive essa experiência semanalmente. Diagnosticada com a rara Síndrome de Ogden, que causa atraso global no desenvolvimento, encontrou na equoterapia mais uma aliada entre suas terapias.
Segundo o pai, Vitor Menezes, na primeira sessão ele e a mãe ficaram mais tensos que a criança, mas ela se adaptou rapidamente. “Como ela é não verbal, não consegue descrever os sentimentos, mas a gente percebe a tranquilidade. Nós sentimos que ela ficou com o tronco mais firme e menos hipotônica com a terapia. Dá pra perceber que ela gosta de estar lá, não manifesta indisposição para andar no ‘Peão’, que é o nome do cavalo.”
As sessões são conduzidas pela Criar Movimente, liderada por Elizamaria Manhães, fisioterapeuta, psicopedagoga e bacharel em Educação Física, e sua irmã, Juliana Manhães, psicóloga dedicada à psicomotricidade e à psicologia. Juntas, integram ciência, cuidado e afeto.
Fundada em 2011, a Equoterapia atende crianças com atrasosmotores, pessoas com deficiência física ou intelectual, indivíduos com transtornos do espectro autista (TEA), pessoas em reabilitação pós-trauma, além de adultos e idosos que buscam melhora na mobilidade, equilíbrio ou bem-estar emocional. Segundo Elizamaria, o cavalo transmite de 90 a 110 movimentos tridimensionais por minuto, similares à marcha humana, stimulando automaticamente tronco, quadris e musculatura postural.
“O vínculo com o cavalo gera sensação de responsabilidade e cuidado. Superar desafios durante as sessões fortalece a autoestima e a interação social no ambiente da equoterapiapromove maior segurança nas relações interpessoais.”
O contato com o cavalo favorece também aspectos emocionais, como ansiedade, concentração e socialização, já que o animal age como um “espelho emocional”, incentivando o autocontrole. As aulas incluem alongamento, exercícios de força e equilíbrio, jogos de coordenação, caminhadas em diferentes ritmos, atividades cognitivas integradas ao movimento e técnicas de respiração.

SKATE PARA TODOS
O skate costuma ser associado ao radical, ao desafio, mas também cria um forte senso de liberdade. Foi dessa combinação que nasceu o O Skate For Us, criado em 2023 por Carol Bichara e pelo professor de Educação Física, Luciano Paes. A ideia surgiu quando Carol trabalhava em uma instituição para pessoas com deficiência visual e percebeu que muitos não se reconheciam como parte ativa da sociedade.
A partir dessa inquietação, ela e Luciano planejaram um projeto que promovesse empoderamento, autoestima e movimento. “As aulas funcionam de um jeito bem leve e adaptado, sempre respeitando o ritmo de cada aluno. Temos instrutores e voluntários que ajudam nas aulas, orientando e guiando quando necessário, mas sem tirar a autonomia de quem está aprendendo”, contou Carol.
Embora tenha começado voltado para pessoas cegas e com baixa visão, o projeto é aberto a todos, reforçando que o skate pode ser um espaço de convivência e inclusão. Segundo Carol, o maior desafio foi adaptar o skate sem perder sua essência, testando formas de orientação, sons de referência e maneiras de descrever movimentos, sempre preservando a sensação de liberdade.
“A segurança é sempre uma prioridade, mas a gente tenta equilibrar isso com a autonomia. Usamos equipamentos de proteção, fazemos um trabalho corporal e espacial com os alunos, mas deixamos que eles sintam o skate de verdade, que descubram seu próprio jeito de deslizar.”
Ana Beatriz Barbosa viu o filho Miguel, uma pessoa com baixa visão, de 10 anos, viver isso na prática pela curiosidade de conhecer algo novo. Segundo ele, a sensação de subir no skate pela primeira vez foi muito boa e deu um frio na barriga, mas logo ele já estava andando pela pista. “O skate me deu mais segurança, equilíbrio e autonomia. Percebi que consigo vencer o medo. Pra mim, é uma grande conquista participar desse esporte, principalmente depois que participei do campeonato ParaSkate Tour 2024, em São Paulo, foi incrível e me motivou ainda mais”, contou Miguel.
Já Davi Gomes, de 20 anos, vivenciou algo parecido. “Eu gosto muito de aventura, acho que foi isso que me motivou a buscar o skate como esporte. Pelo fato de ser cego, eu não tenho medo de nada em relação ao corpo, mas as aulas me auxiliaram a ter mais postura e coragem para enfrentar meus medos e obstáculos. Os meus momentos favoritos nas aulas são descer das rampas”, compartilhou Davi.






