Sabe aquela sensação de “cérebro derretido” depois de passar horas rolando feed nas redes sociais? Essa sensação tem nome e explicação. Eleita a palavra do ano de 2024 pelo Dicionário Oxford, o termo Brain Rot ou “cérebro apodrecido”, em tradução literal, ganhou força nas redes para descrever a suposta deterioração do estado mental ou intelectual de uma pessoa, provocado pelo consumo exagerado de materiais considerados triviais e sem desafios. E esse fenômeno tem chamado atenção de especialistas em saúde mental ao redor do mundo.
O termo surgiu há mais de um século, mas ganhou força no último ano. A expressão define o impacto do consumo excessivo de conteúdos digitais considerados vazios, repetitivos ou extremamente estimulantes, como os que circulam em redes sociais.
Apesar de parecerem apenas conteúdos bobos e inofensivos, eles refletem uma realidade preocupante. A psicóloga infantil, neuropsicóloga e professora universitária Larissa Gonçalves explica que esses vídeos curtos e acelerados ativam de forma intensa o sistema de recompensa do cérebro, liberando dopamina em excesso, especialmente em crianças e adolescentes, cujos cérebros ainda estão em formação.
“O consumo constante desse estilo de conteúdo pode afetar negativamente diversas funções cerebrais, como a atenção sustentada, tolerância à frustração, à memória de trabalho e o controle inibitório, que são funções executivas fundamentais para o aprendizado e a autorregulação. É como se o cérebro começasse a funcionar no modo acelerado o tempo inteiro, o que dificulta tarefas que exigem mais concentração e paciência.”, afirmou a psicóloga.
Junto com o termo Brain Rot, um estilo de conteúdo específico ganhou os feeds e virou febre em 2025: o chamado Italian Brain Rot. Esses vídeos, geralmente absurdos e caóticos, são marcados por montagens feitas por inteligência artificial. Imagine um crocodilo com corpo de avião de nome “Bombardino Crocodilo”, um tubarão chamado “Tralalero Tralala” com pernas usando tênis, ou uma bailarina com cabeça de xícara chamada “ballerina cappuccina”. Tudo isso com trilha sonora e ações sem sentido, cortes rápidos e sem diálogos coerentes.
Segundo o médico neurologista Pedro Bastos Saraquino, durante a infância e adolescência, o cérebro está passando por processos fundamentais como a poda sináptica e a mielinização.
“Esses processos moldam o funcionamento do cérebro com base nas experiências vividas. Se os estímulos recebidos forem rasos e repetitivos, como os desses vídeos, as conexões fortalecidas também serão rasas, o que pode comprometer o desenvolvimento de habilidades cognitivas mais complexas no futuro”, explicou.
E isso não se restringe aos pequenos; adultos também sofrem com os efeitos de conteúdos nada estimulantes. Embora o cérebro do adulto já esteja mais desenvolvido, ele continua se adaptando aos hábitos que são alimentados pelo indivíduo.
Em pesquisa feita pelo jornalista norte-americano Nicholas Carr, no livro A geração superficial: O que a Internet está fazendo com os nossos cérebros, o autor aponta que o consumo excessivo de conteúdos rápidos e desconexos pode diminuir a capacidade de concentração, leitura profunda, memória de trabalho e até aumentar os níveis de ansiedade e impulsividade em adultos. A exposição prolongada a conteúdos rápidos e intensos provoca hiperativação do córtex visual, auditivo e da chamada rede de saliência – responsável por identificar o que é mais relevante no ambiente. Quando essa rede é bombardeada por estímulos triviais e caóticos, ela começa a priorizar o que é chamativo, e não necessariamente o que é significativo. “Isso pode levar à dificuldade de introspecção, maior irritabilidade, perda de foco e até insônia. A pessoa começa a perder o interesse por atividades simples, como ler um livro ou caminhar em silêncio”, alertou Pedro.
De acordo com Larissa, o consumo de conteúdos digitais, como o humor nonsense, pode até funcionar como válvula de escape emocional. “O problema surge quando isso se torna o padrão e substitui outras formas de lazer, aprendizado e descanso mental”, apontou a psicóloga.
A especialista explica que o excesso desse tipo de conteúdo contribui para o esvaziamento da motivação intrínseca, ou seja, a vontade de fazer as coisas por desejo próprio e para a perda do interesse por experiências mais ricas, como interações humanas reais, leitura, brincadeiras ou simplesmente o tempo ocioso, que também é essencial para a vida.

ENCONTRAR O EQUILÍBRIO É NECESSÁRIO
A solução não é banir a tecnologia, o que é algo quase impossível nos dias de hoje, mas equilibrar o uso com outras atividades. O cérebro precisa de experiências variadas para se desenvolver bem e isso inclui brincar ao ar livre, ouvir histórias, esperar, se frustrar e até mesmo se entediar.
Segundo a psicóloga, é essencial lembrar que o cérebro humano, especialmente na infância e adolescência, precisa de experiências diversas e reais. “Essas vivências não são substituíveis por telas. Elas constroem a base da inteligência emocional, da criatividade e da capacidade de atenção prolongada”, explicou.
Para Pedro, a resposta está na capacidade do cérebro de se adaptar, a chamada neuroplasticidade. Isso significa que ele pode se reorganizar de maneira funcional a partir de estímulos saudáveis e repetidos. Para isso, é preciso adotar práticas que envolvam foco sustentado e estimulem múltiplas redes cerebrais, como leitura profunda, atividades físicas ao ar livre, artes manuais e até momentos de silêncio e ócio criativo. “Mesmo pequenos hábitos, como olhar pela janela e deixar o pensamento vagar ou escrever à mão, já ajudam a restaurar o equilíbrio mental”, orientou o neurologista.
Oferecer conteúdos com enredos bem construídos, personagens com emoções complexas e narrativas que estimulem o pensamento também é uma das formas mais eficazes de promover o crescimento intelectual e emocional das crianças. Esses materiais estimulam diferentes regiões do cérebro, fortalecem a memória, a linguagem, a empatia e a autorregulação emocional, além de ampliarem o vocabulário, a imaginação e o raciocínio lógico. Quando a criança se envolve com uma história que tem começo, meio e fim, ela exercita a atenção sustentada e aprende a lidar com sentimentos de maneira mais rica e humanizada.
Em tempos de estímulo excessivo e recompensas instantâneas, é essencial lembrar que o cérebro, principalmente o das crianças, precisa de tempo, silêncio, desafio e afeto. Rir de um tubarão com tênis pode ser divertido, mas que isso não substitua a capacidade de imaginar, criar, escutar uma boa história ou manter uma conversa até o fim. Como reforça Pedro Bastos: “Reeducar o cérebro não é fácil, mas é possível. Com persistência e equilíbrio, podemos recuperar a capacidade de atenção plena, raciocínio estruturado e até mesmo o prazer por experiências mais ricas e significativas.”






